O Ventríloquo

Um ventríloquo se aproximou de mim e colocou a mão no meu bolso. Sacudiu sua longa cabeleira ruiva, deu uma soprada no meu ouvido, me olhou no fundo dos olhos e sussurrou sorrateiramente.

– Você, poeta, fala também com a boca fechada.

Ser chamado assim de poeta trouxe-me uma nesga de orgulho. Um poeta tão medíocre eu me considerava. Jamais publicara nem uma reles linha a não ser escritos numa cadeira escolar esquecida. Meus poemas no lixo repousavam.

O Ventríloquo deu dois passos para trás, afastando-se de mim e pude vislumbrar a praça. Uma luz difusa entrava por entre as nuvens iluminando o calçamento mal ajambrado, nos inúmeros espaços faltantes do mosaico brilhavam pequenas poças d´água acumuladas da chuva da madrugada recente.

Um brilho estranho adornou também os olhos esfuziantes do artista de rua que realmente havia cismado comigo. Seus olhos traçavam uma linha inequívoca reta em direção aos meus. Trazia nos braços um boneco mondrongo. Não existiria melhor adjetivação. Horrendo talvez. Olhos gigantescos como os de seu dono, roupas puídas duma criança distante, uma figura pobre. E triste, devo acrecentar.

Mais três passos para trás e o Ventríloquo já iniciara sua apresentação. Macaqueações, o velho número do boneco impertinente. Uma piada sobre um gato morto, risadas, aplausos da pequena multidão que já se formava.

Ele me tocou, será que me passou algum tipo de moléstia, porque falou comigo? O que ele quis dizer com o que disse. Boca fechada. Não entendi nada. Acho que ainda deveria estar com a mente meio avariada porque voltei a ficar tonto. As coisas se confundiram um pouco naquele momento.

Não estava doente. Nem o Ventríloquo me disse nenhuma novidade. O que me unia a este estranho andarilho. Esta ligação que transcendia nossas almas transparentes me intrigou. Senti me conectado a ele que bradava loucuras, se dividia entre ele e um boneco.

Fiz milhões de analogias inebriado com minha última dose. Naquela velha praça general alguma coisa alguma outra coisa me conectou, me confundiu, me fundiu com ele. Como se fossemos membros de uma velha maçonaria. Feiticeiros medievais, necromânticos através do infernal boneco, quanto devaneio para uma quarta-feira abafada… Uma ordem secreta dos artistas bizarros.

Tudo isso sem ter escrito um único poema.  O calor aumentou e quis tomar uma água.

Roubado.

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Um comentário em “O Ventríloquo

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