O Pintor

Convencido que era chegada a hora de seu salto a frente, o pintor acrescentou novos dados à sua prévia pesquisa. Era um processo meio desorganizado de rascunhos que ele fazia nas horas mais impróprias. Quatro horas da madrugada dependurado numa sacada velha, anotava algo em seu caderninho sujo. Enquanto deleitava-se com uma insossa ração lacto-vegetariana, rabiscava a idéia na toalha de papel.

Como transcender? Como através de um quadro alcançar a transcendência que buscava. Isolado em seu ateliê, meditava diariamente nas formas divinatórias que suas matizes buscavam. Costumava ler poesia para inspirar-se. Não eram nas cores e nem nas formas suas dúvidas, e sim a questão da importância da mensagem que deveria passar.

Tropeçou num livro sem capa enquanto caminhava pelo jardim. Este deveria ter caído no último transporte de uma coleção antiga de um cômodo para outro. Na contra-capa não era possível ler o nome do poeta, o que trouxe uma palpitação diferente no coração do pintor.

Adorava ter esta sensação estranha que algo aconteceria. Fisicamente seu corpo dava os sinais, o peito se expandia, as pupilas dilatavam, novos cheiros invadiam sua narina. Na hora em que sentia isso, sabia que o momento se aproximava.

Queria retratar a divindade diáfana, um não-deus, um deus-química. Sentia a morte e a dor dos animais como o poeta sem nome disse na única estrofe que leu. Era a senha, a chave para a conquista do seu objetivo. Mineral, vegetal e animal unidos numa só força. Água, fogo, terra e ar amarrados num só chumaço da poesia colhida peloss pincéis.

Ainda assim sentiu os neurônios balançarem quando sorveu rapidamente suas pílulas. A confluência das duas coisas simultâneas enrijeceu seu braço direito. A necessidade de seus remedinhos junto com a inspiração. A necessidade da transcendência imediata.

Tombou com uma parada cardíaca sem conseguir pintar o tal quadro.

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