A prisão

subindo para o infinito

Estar aqui confinado neste espaço bucólico me suscita grandes fantasmas na mente. Fico me perguntando se toda a luta vale a pena. Lembro de meus companheiros que tiveram menos sorte que eu e hoje mofam em cárceres imundos sendo alimentados com lavagem, tratados como porcos.

Aqui neste rancho afastado, cinco militares revezam-se a tomar conta de mim. O despertar é na alvorada do sol. Levantamos e somos obrigados a correr para os exercícios matinais. Já perdi a conta de quantos quilos perdi, mas estou esquálido. Magro porém ativo. O momento dos exercícios matinais é a hora que minha mente mais trabalha. Já que meus pensamentos os militares não podem censurar.

Acredito estar sozinho aqui. Não vi mais ninguém nestes seis meses. De vez em quando vejo pequenas charretes que passam na estrada ao longe levando camponeses aos trabalhos nos campos de trigo. Depois, retorno para minha cela. Me é permitido pensar mas escrever nunca. Sem canetas, sem papel, sem noção dos dias. Anoto na parede da minha cela as datas para não perder a sanidade.

A tortura consiste em não falar comigo. Sou submetido as correrias matinais, retorno, almoço sempre o mesmo frango insosso. Ninguém se dirige a mim. Sabem que sou um dos líderes surgidos na rebelião. Temem o poder da palavra e por isso não fazem nem o mais simples contato visual. A troca de idéias – uma utopia verdadeira.

Sou tratado aos berros. – Prisioneiro, faça isso, faça aquilo. Vá para lá. Retorno para minha cela após o almoço e tenho direito a derradeira saída para o pátio no final da tarde caso o tempo esteja bom. Quando chove ou neva, sou mantido encarcerado, sem um reles pedaço de papel, nem lápis, apenas com minhas anotações mentais.

cercam-me cobras

O isolamento tem a intenção de quebrar minhas convicções. Parece que eles querem me matar com a inanição cerebral. Sem notícias da família, dos integrantes do movimento, das novidades da minha cidade. Sem saber como as negociações andam, comendo todo dia a mesma comida. Tratado dignamente como um cachorro.

No que calculo seja o sétimo mês acordei ainda na penumbra da madrugada com as janelas batendo violentamente do lado de fora do complexo onde ficava minha cela. Como não tinha janela, perscrutava os sons colocando o ouvido na parede. O barulho era enorme. Não sabia realmente o que estava acontecendo.

Fui surpreendido com nova tremedeira nas paredes e comecei a entender que estava enfrentando as forças da natureza. Mágicas ou não mágicas eram forças bem vindas e eu deveria aproveitar a oportunidade. O tornado deu uma segunda vomitada fremente e tudo foi pelos ares. Olhei para cima e vi todo o madeirame da construção ao lado ir pelos ares com se de papel fosse.

A parede onde anotava os dias que passava voou em seguida. Livre? Ouvia gritos frenéticos que deveriam ser de meus encarceradores. Não houve tempo para nada. Logo em seguida senti que alcei voô magnificamente. Que irônica liberdade, a natureza resgata-me com lufadas dum tornado incontrolável.

Neste voô para a certa morte recordo que nada registrei, deixei apenas meu legado em minhas atitudes, em minha abnegação. Minha dedicação à causa. Meu desaparecimento singelo será meu legado. De mim lembrarão como o líder que morreu salvo pelo vento.

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4 comentários em “A prisão

  1. Bom dia.
    Gostei do texto, agora ser salvo pelo vento?? É imaginação a mais eheheh.
    🙂

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