Masmorra

Preso sob sete metros de paredes espessas de lodo. Não era a melhor definição de diversão. Estava literalmente enterrado vivo numa masmorra subaquática em algum lugar da Cidadela Oeste. Articular mentalmente seus poderes mutantes será a única saída dessa situação.

Uma averiguação visual é aprimeira coisa a ser executada. Úmido, o chão afunda sob meus pés. Uma areia preta grossa é o fundo da minha cela. Muito abafado aqui dentro. A fumaça cinza do metano impregna tudo.

Deve estar 40 graus aqui, a única iluminação vem de uma luminária de vaga-lumes que pende imóvel do teto. Quase posso alcançar a luminária com apenas um toque. O teto, uma grossa camada impenetrável de raízes está a aproximadamente um metro e noventa do chão.

Este compartimento com cinco metros de largura é o meu confinamento. Pelo menos a quantidade de vermes nematóides é farta por aqui. Nunca fico com fome. Uma forma de proteína pura que absorvo e que sinto, vem me alterando, pouco a pouco. Serei um nematóide brevemente. Terei a amplidão de todos os habitats? Estarei na terra, embaixo dela. Parasitando em simbiose no mar, atachado aos grandes leviatãs, magnanimamente alvançando vários metros em extensão físico-mental.

Meu único olho que funciona não ostentava mais seu brilho natural alaranjado, mas ainda podia sentir que receberia visitas em breve. O cheiro da megavegetofauna surrupiava de longe meu olfato. O olho captava todo o cheiro. Não estava errado. Um grande ser se manifestou, formando-se como uma massa biovegetal em ebulição nuclear. Era a presença química divina. Transmutar terrosamente com esse tipo de energia era sim meu objetivo. O clímax que busquei desde que parti.

mas morra

Nunca erro. Sabia que aquele era o momento perfeito da fusão. Concentração máxima para conseguir lançar no cosmos os pulsares medulares. O transe é difícil de alcançar. Apenas uma vez consegui. Todavia não alcancei o sétimo plano. Permaneci ali inerte, solerte, destinado a passar mais cinquenta anos naquela masmorra fétida. O que são cinquenta anos para quem já está aqui há trezentos e cinquenta anos buscando a escuridão da alma absoluta.

A fusão objetiva a eliminação da capacidade pensante, a epifania suicida tende à união do ser com o âmago da eternidade. O sétimo plano, uma utopia constante, uma quase lenda, um talvez, um quase, uma tentativa, tratando-se disso. Era o desejo: Uma fusão hostil ou harmônica com o absoluto.

Mais uma falha e o próximo ciclo de oportunidades seria ainda mais obscuro. Tem dúvidas?

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