Fronteira

Essa história se passa numa inóspita fronteira. Não se sabe se entre o sonho e a realidade ou se apenas um fronteira entre dois reinos longínquos, imaginários e esquecidos. O sol causticante a todos castigava já no alvorecer. Era sabido naquela região de montanhas desérticas o ar rarefeito e o calor demoníaco eram dois adversários a mais na luta pela sobrevivência. Nas últimas décadas as temperaturas todavia estavam cada vez mais escorchantes.

Os dois moribundos irmãos vinham cambaleando nervosos pela íngreme e pedregosa estradinha que levava ao cume. Esgueirando-se entre os precipícios sentiram os primeiros raios solares que espantavam a madrugada, o céu em tons de púrpura e âmbar anunciava o fim da noite companheira, que os ajudara a passarem despercebidos até ali.

Noodlot, o mais velho e Kohtalo, o caçula, chegaram até o topo da montanha. Vestiam trapos impregnados pelas agruras e tons do deserto cor de açafrão, mendigos amarelados, cheios de areia por todos os poros. Extenuados, vislumbraram ao fim de uma caminhada de cinquenta passos um posto de fronteira encravado entre as cordilheiras gêmeas.

reinos desérticos

Um posto precário, construído com paliçadas de madeira e um campanário de pedra-sabão, habitado por seis ou sete guardas, um posto como outro qualquer com a diferença de estar localizado no meio do nada no alto das montanhas alaranjadas. Via se pouco da construção, envolta numa espessa massa de nuvens.

Kohtalo, o irmão mais novo sabe que o rosto de Noodlot é o procurado – é ele é o notório criminoso nos reinos desérticos. Foi ele que teve a coragem de ir contra os desígnios do destino que impediam os desejos do indivíduo de existirem livremente naquelas terras. Foi que ele que protestou, advogou pelo uso livre da mandrágora, fora por isso condenado à forca, havia fugido e agora buscava refúgio atravessando escondido todos os reinos desérticos numa busca frenética por um oceano utópico, que talvez nem ali estivesse, talvez nem existisse, onde ele poderia fugir para um outro continente, onde fosse apenas um desconhecido.

Noodlot & Kohtalo

Kohtalo sussurra – Abaixe a cabeça irmão, esconda seu rosto e simule um aleijão. Claudicando, Noodlot passa ombreado por Kohtalo, atravessam o portão cor de abóbora, são ignorados pelos sentinelas e conseguem atravessar pelo outro portão. Um despenhadeiro gigantesco irrompe majestoso como uma estrada sem fim. Descer por entre essas escarpas é alentar contra a própria existência

Noodlot veste botas não apropriadas para aquela descida estreita que alterna pedras vermelhas pontiagudas e areia finíssima amarelo-mostarda. Tropeça na descida, cai alquebrado dentro de uma vala lateral e suplica a Kohtalo. – Uma fumegada, irmão Kohtalo, a mandrágora me chama.

Mandragora_Tacuinum_Sanitatis

Kohtalo retira um pouco da planta macerada de seu alforje ocre, prepara o recipiente e fumam a mandrágora. Noodlot sentado na vala, Kohtalo acocorado nos píncaros da estradilha. Sabem do seu vício, lamentam que ele tenha que ser sanado naquele momento. Conhecem os benefícios do vegetal e sabem também que é ele o culpado por estarem naquela situação periclitante.

Noodlot inebriado pela epifania da mandrágora observa calmamente o solapamento dos sentidos, de soslaio observa acima de seu ombro esquerdo a descida vertiginosa, aparentemente descontrolada de dois cavalos envoltos numa nuvem de poeira, alguns nanosegundos depois percebe que não são dois mais cinco equinos cavalgando furiosamente pela estrada.

O surdo Kohtalo não percebeu quando a carroça descontrolada carregada de toras de madeira passou por cima dele, pelos cascos do cavalo, num toque hediondo, velocíssimo, ao passar do primeiro animal, foi imediatamente lançado precipício abaixo. Impedido de balbuciar o mínimo som, Noodlot apenas fechou os olhos e dormiu.

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