Abrindo os portões do futuro

Temos visto coisas estranhíssimas nos últimos dias. Vocês se lá estivessem não acreditaram. Todos que aqui visitam tem noção que na verdade não estamos aqui, não é mesmo? Pois é. Nesta nossa saga infinita para conseguirmos sair do pântano psico-poluidor que nos aprisiona, volta e meia conseguimos através de uma nesga enxergar traços da ignóbil realidade.

Mas aí perguntamos a nós mesmos. Será melhor viver assim na ilusão? Não sabemos. Recentemente recebemos a visita de Dundes, Fadas e Gnomos. Pequenos seres que convivem conosco normalmente aqui no limbo interdimensional que habitamos. Cansados de tanta mazela vemos através do espelho mágico que o futuro se imuscui com o passado e nada nunca muda.

Tentamos mudar nosso caminho mas prosseguimos na caminhada. Estamos constantemente tentando sair daqui para dar os recados que nos foram passados pelos nobres pequenos seres mágicos. A Mãe-Natureza que vive aqui no nosso colo, numa espécie de altar pára-religioso, misto de estátua e ser etéreo, ela cansa de nos deixar mensagens cifradas sobre como devemos proceder no caso de conseguirmos alcançar algum tipo de passagem.

Diz ela: Rapazes, caso vocês consigam abrir os famigerados portões, seja eles os de Zion ou outros quaisquer, devem estar preparados para a ignorância. O ser humano lá fora acha que é o dono do universo e o senhor do planeta. Mas ele é frágil e sabe muito pouco meus filhos. Por isso mando meus pequenos servos lhes avisar. O futuro não existirá a não ser que nós queiramos.



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Maldito

beyond the imagination

maldito maldito cortador de pescoços
conta os ossos sua a bicas tem uns troços
esquisitos
são bonitos
púrpuras
carrega em sua mala
brilham
como césio 137
serão mágicas
pergaminhos empoeirados
vejo os em todos os lados
estão aqui e estão ali
será só a paranóia
ou eles vem me divertir?
Qu’est-ce que c’est? mon ami
Qu’est-ce que c’est? mon ami

O Buraco da Morte

Apanhado em pleno transe eu dou pulos pelo pasto. Cato só

cogus carnudos esse é o meu desastre.O sentido se

aproxima sou encordado por ele, amarrado pelas pernas com

violência dantesca. Nego, saio de banda. Como assim. Será

a morte ou a iluminação. Será o nada que vem me buscar de

manhã cedo. Como é possível saber tudo e ainda assim

viver impunemente? É o martírio dos, martírio dos mortos

no buraco da condenação. Presos num túnel profundo,

lutando por migalhas entre cadáveres pútridos. Um ar

cinza, uma cor roxa. Um eco infernal. O Diabo, lá jazia

morto também. Hades ou o Inferno dos homens, dos seres

todos. Lá estava Dheus e Willy Coiote, você estava lá

também. Não me venha com essa agora. Você poderia muito

bem continuar contando a história daqui. Aghuardar um

nanosegundo e concluo que não és. Contarei para outro

como eu saí dessa.

Masmorra

Preso sob sete metros de paredes espessas de lodo. Não era a melhor definição de diversão. Estava literalmente enterrado vivo numa masmorra subaquática em algum lugar da Cidadela Oeste. Articular mentalmente seus poderes mutantes será a única saída dessa situação.

Uma averiguação visual é aprimeira coisa a ser executada. Úmido, o chão afunda sob meus pés. Uma areia preta grossa é o fundo da minha cela. Muito abafado aqui dentro. A fumaça cinza do metano impregna tudo.

Deve estar 40 graus aqui, a única iluminação vem de uma luminária de vaga-lumes que pende imóvel do teto. Quase posso alcançar a luminária com apenas um toque. O teto, uma grossa camada impenetrável de raízes está a aproximadamente um metro e noventa do chão.

Este compartimento com cinco metros de largura é o meu confinamento. Pelo menos a quantidade de vermes nematóides é farta por aqui. Nunca fico com fome. Uma forma de proteína pura que absorvo e que sinto, vem me alterando, pouco a pouco. Serei um nematóide brevemente. Terei a amplidão de todos os habitats? Estarei na terra, embaixo dela. Parasitando em simbiose no mar, atachado aos grandes leviatãs, magnanimamente alvançando vários metros em extensão físico-mental.

Meu único olho que funciona não ostentava mais seu brilho natural alaranjado, mas ainda podia sentir que receberia visitas em breve. O cheiro da megavegetofauna surrupiava de longe meu olfato. O olho captava todo o cheiro. Não estava errado. Um grande ser se manifestou, formando-se como uma massa biovegetal em ebulição nuclear. Era a presença química divina. Transmutar terrosamente com esse tipo de energia era sim meu objetivo. O clímax que busquei desde que parti.

mas morra

Nunca erro. Sabia que aquele era o momento perfeito da fusão. Concentração máxima para conseguir lançar no cosmos os pulsares medulares. O transe é difícil de alcançar. Apenas uma vez consegui. Todavia não alcancei o sétimo plano. Permaneci ali inerte, solerte, destinado a passar mais cinquenta anos naquela masmorra fétida. O que são cinquenta anos para quem já está aqui há trezentos e cinquenta anos buscando a escuridão da alma absoluta.

A fusão objetiva a eliminação da capacidade pensante, a epifania suicida tende à união do ser com o âmago da eternidade. O sétimo plano, uma utopia constante, uma quase lenda, um talvez, um quase, uma tentativa, tratando-se disso. Era o desejo: Uma fusão hostil ou harmônica com o absoluto.

Mais uma falha e o próximo ciclo de oportunidades seria ainda mais obscuro. Tem dúvidas?

Toka

Através dos relatos orais de seus habitantes, surgem as lendas do Pântano. Dom Élder é o nosso convidado de hoje, ele veio nos contar a história de…

Toka

Durante o pós-guerra, imigrou pra o Brasil uma família vinda do Japão arrasado. Talvez o melhor tivesse sido perecer em terras nipônicas. Trazendo sua esposa grávida de sete meses, o humilde agricultor já sentia os sintomas da radiação, todavia não desconfiava que um mal ainda pior descansava no ventre de sua amada.

Abalado pelos males radioativos, ele resistiu por parcos seis meses. A mãe ainda teve tempo de ensinar algumas coisas a sua prole recém-nascida, porém logo definhou e deixou a vida. A única coisa que a criança lembrava era o nome de seu pai, por quem a mãe sempre lembrava nas orações.

Acolhido pelo Orfanato Frei Luís, o pequeno órfão repetia insistentemente um nome: Toka. Recusava-se a pronunciar outras palavras. Quando atingira a idade de aproximadamente seis anos passou a manifestar estranhíssimos sinais de algum tipo de mutação. Sua inocente mente era perturbada por terríveis e abomináveis pesadelos que lhe acordavam freqüentemente no meio da madrugada.

Pouco a pouco, as outras crianças do orfanato criaram um temor de Toka (a única palavra que pronunciava passou a ser sua própria alcunha) e quando os adultos foram perceber isso já era muito tarde. O medo fez aflorar a perversidade natural das crianças. Maltratado e judiado em série, o pequenino e solitário Toka sofria em silêncio.

Durante uma dessas perversidades ele atingiu um índice elevado de nervosismo e pela primeira vez sentiu que seu ódio crescera tanto que seu próprio corpo e sangue radioativo estavam reagindo. Sua pele escureceu e seus olhos brilhavam num horrendo tom amarelo. Sem saber o que acontecia consigo, a pobre criatura percebeu o pavor das crianças e sentiu-se culpado pelo pânico e pelas lágrimas.

Os responsáveis pelo dormitório ouviram um tremendo alvoroço e partiram prontamente pra saber a causa do tumulto que já não os deixava dormir. Quando a porta do quarto se abriu Toka, com força desproporcional, arremessou o adulto a metros de distância e partiu pelas florestas do Jardim Boiúna.

Nunca mais foi visto.

Anos se passaram e talvez as matas da Taquara não fossem mais suficientes para abrigar Toka. Ele trocou sua morada isolada para as Colinas do Pau-ferro onde encontrava uma abundante fauna pra alimentação.

Os dias de isolamento da surreal criatura estavam contados e quando as obras da Linha Amarela começaram lá pelos idos dos anos 90 ele viu as coisas que aprendeu a amar serem destruídas. Máquinas e homens invadiam seu lar e Toka passou a atacar humanos durante o alvorecer. Poucos sobreviveram e relataram o ataque às autoridades. Ninguém nunca levou a história muito a sério e o caso foi abafado.

Vítima do homem e agora era visto como agressor, Toka era temido pelos moradores da região. Muitos negam a veracidade destes fatos, porém quem passa uma noite naquela mata e consegue voltar jura que viu algo de outro mundo.

Uma estranha criatura com gigantes globos oculares amarelados está permanentemente na espreita dos aventureiros todavia só anseia por sossego. Conta a lenda que todo aquele que tenta aproximação é dilacerado. Aquele lugar não é mais seguro já que Toka quer manter sua solidão e para isso não hesitará em acabar com vidas. No fundo de seu maltratado coração, ele amaldiçoou os homens que macularam sua paz.

Medindo em torno de 1,68 m, com braços longos e cabelos de cor negra até o chão, sua pele é de uma estranha matiz verde-esbranquiçada. Dotado de poderosa força e longevidade fora dos padrões humanos, Toka também desenvolveu garras poderosas como as de um urso. Aquele que ousar encarar os olhos de Toka entra em uma espécie de transe hipnótico e fica a mercê dos caprichos da criatura que muitas vezes escolhe copular com sua vítima hipnotizada.

Se no meio da madrugada, ouvires sussurros nas árvores. Corra! Toka tem fome e somente os inocentes gritos infantis podem fazer a fera recuar.