As aventuras na Cidadela Oeste – Ouça e baixe

As Aventuras na Cidadela Oeste é o passeio onírico que os Homens do Pântano propõem a você. Uma viagem musical por um mundo apocaliptico situado em alguma dimensão entre o passado e o futuro. Camadas de guitarras setentistas, linhas de baixo com um pé no reggae, rap irônico e incisivo em cima de bases grooveadas temperadas com um cavaquinho psicodélico. Coloque no volume máximo e curta o som!

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É pela pele

É pela pele

que afloram meus defeitos

pus quer sair pela pele

perebas, pústulas, caspa

defeitos intermitentes

pare

palavras novas

trazem dores antigas

palavras livres

loucas vidas

vivas

veja

as

aqui

numa piscina de fracassomaníacos nado contente

fixados em distorcer, estão distorcendo

o tempo

desafiando em ritmo lento

as amarraduras do status-quo

doenças aproximam-se

instala o alcoolismo, a compulsividade,

a loquacidade frenética do nada dizer

a velhice contumaz

o destino do jovem sucesso alheio, a dúvida e a culpa

o nada, os objetivos e tudo o que nos rodeia

quantas palavras dissociadas de significado

fermentam como cerveja, carburam, transformam-se

compostagem cerebral

saindo fora do normal

é assim o genial?

quantos mais acontece, menos eu sei

vou (vamos) desdeusizando tudo quanto podemos

quem saca a mensagem já volta correndo

pelo caminho do mundo ao-contrário

dos tijolos roxos que voam

saltitamos pedra a pedra

em direção a uma nuvem gasosa

um buraco transdimensional etéreo

la é o fim

que bom que chegou a hora de morrer


			

Duplicando o induplicável

Deus não foi bom

não deu nada para mim

Esse destino safado

só me deu coisa ruim

Sou o Velho Louco Surdo

E eu só sei reclamar

Eu sou um-sete-um

e eu vou meter um agá

Mas eu não vou te enganar

Nada pra mim faz sentido

Não vejo nada bem claro

Não sei se eu sou bandido

Fico pensando as vezes

Se essa melancolia

É porque eu saco o mundo

Ou é só mesmo euforia

Dessa droga poderosa

Que injetaram em mim

Que me causou a cegueira

Por isso que eu sou assim

Faço o estilo açougueiro

Vou cortando na carne

A morte eu vejo no sangue

E vai queimar na fogueira

Essa é minha gangue

A turma só da doideira

Dando um beijo na vida

Eu vejo o mundo da sorte

Esse destino safado

Que me pegou de consorte

O Absurdo mortal só por puro esporte

Velho Louco Surdo desafia a morte


Saltando de dentro da tela

Quem é quem nesse multiverso de fantasias. Na edição passada vimos que nossos heróis encontravam-se perdidos num limbo interdimensional. Através de um aplicativo transmutaram-se em pequenos íons. De dentro de seus leitores eletrônicos saltaram homens coloridos.

Esta literatura elétrica donde pulam super-humanos para a realidade não é um sonho. Da tela de cristal líquido, surgem sob o som de maviosas flautas os novos homens. O profeta, o hipocondríaco, o racional, o bêbado, o fanático, o estudioso e o desligado. Sete faces de um mesmo ser.

Neste tecnomundo, comentaristas e articulistas do vento apenas se dividem em diferentes doutrinas. Metade julga que o que passou passou e não importa mais. O outro terço julga que o passado passou mas é parte vital deste futuro distante. Como não sou bom em matemática, ficou faltando um pedaço que está  a cargo do leitor.

Temos tantas dúvidas. Nessa nossa nação pantanosa, somos super-vilões com frenéticos poderes. O poder de tirar poeira de velhos vinis. O poder de poder vencer, o poder de poder perder. Diretores que passaram por nossa sede sentem sede quando estão em contato conosco.

Acredito que devamos voltar para dentro do sonho. De dentro das telas de cristal líquido podemos vislumbrar as diferentes ondas. Não é crack, não é oxi, não é pó. É vida vivida em forma de gotas, em pequenas pílulas coloridas. Nada disso faz sentido. Viver não faz sentido.

Quando eu contei para Dr.Pangloss as dificuldades que estavamos sofrendo nessa aventura ele me aconselhou: “Querido Devianix III, você já deveria estar careca de saber que é preciso preencher todas as lacunas, nunca se deve terminar o dia sem coonestar um relatório diário completo. No meio do mês, uma prévia do relatório mensal e no fim do mês o dito cujo deve estar aqui presente no pendrive demoníaco de Deus – esta figura que reputo não existir.

De posse da arma Y, uma cortesia do profeta, meu amigo íntimo e um dos sete homens que saltaram da virtualidade para a realidade. Eu, Devianix III, herdeiro dos grande párias do multiverso, posso deslocar o prisma da insanidade. Quero, como bem disse um outro, fundar a Igreja dos Loucos. É isso, é isso! Como não pensei nisso antes.

Será uma comunhão de bizarros que salvará este pobre planeta, aqui o que se dá – planta. Pobre de mim – pobre de nós. Vamos acionar a arma Y e esperar para ver se o raio colorido que de lá sairá vai adiantar alguma coisa.

Devianix III

Cry for nature

There´s no need to understand life

Just live it

As long as you´re alive

It´s a blessing

From a God that does not exist

In your mind there´s a void

In your soul there´s no joy

Why live like that?

While forests are being torn down

Lakes are getting dry

Humans are to blame

Animals have no name

They just are

We rate beyond them

We play a dirty game

No one should complain

No one should demand

Let the music take your mind

Como assim? melhor que Alice no país das maravilhas, os pantanosos saem de dentro de espelhos e tentam mudar as realidade bizarras. Este mundo real está muito plástico, por isso a partir de agora vamos ficar somente dentro dos espelhos.

Para cada vidro quebrado um de nós se transformará em reflexo. Para cada caco de vidro, um corte será feito num pulso recalcitrante.

Se você não acha que isso é importante. Puxe um livro da estante. Leia sobre a poluição maldita. Sobre o fracasso da raça humana. O humano é a praga da terra e sinceramente muitas vezes perguntamos o que estamos fazendo aqui.

Comendo caqui? Fica com cica na boca. Seque o sapo da lagoa. Morrerá como jacaré faminto que apenas quer viver. Procurará como Capivara distinta que quer apenas uma casa. Mais o ser humano é o pior. Apenas um, apenas um homem pode matar mais de mil animais só com seu olhar assassino.

Tontura Piração Paraíso

vamos navio navegaí vazio

A piração junto com a mania
cria o mal estar e a fobia;
o desvio dá arrepio
e a certeza de ter escolhido certo
o caminho errado
quando o destino menino veneno
vira só o duodeno –
o apelo é a sequela
não inventa, se assemelha
está sempre a procura da centelha
incendeia, na candura da serpente que alheia
morde a nuca de todo aquele pretendente
a ser algo a ser mais do que só gente.

Fronteira

Essa história se passa numa inóspita fronteira. Não se sabe se entre o sonho e a realidade ou se apenas um fronteira entre dois reinos longínquos, imaginários e esquecidos. O sol causticante a todos castigava já no alvorecer. Era sabido naquela região de montanhas desérticas o ar rarefeito e o calor demoníaco eram dois adversários a mais na luta pela sobrevivência. Nas últimas décadas as temperaturas todavia estavam cada vez mais escorchantes.

Os dois moribundos irmãos vinham cambaleando nervosos pela íngreme e pedregosa estradinha que levava ao cume. Esgueirando-se entre os precipícios sentiram os primeiros raios solares que espantavam a madrugada, o céu em tons de púrpura e âmbar anunciava o fim da noite companheira, que os ajudara a passarem despercebidos até ali.

Noodlot, o mais velho e Kohtalo, o caçula, chegaram até o topo da montanha. Vestiam trapos impregnados pelas agruras e tons do deserto cor de açafrão, mendigos amarelados, cheios de areia por todos os poros. Extenuados, vislumbraram ao fim de uma caminhada de cinquenta passos um posto de fronteira encravado entre as cordilheiras gêmeas.

reinos desérticos

Um posto precário, construído com paliçadas de madeira e um campanário de pedra-sabão, habitado por seis ou sete guardas, um posto como outro qualquer com a diferença de estar localizado no meio do nada no alto das montanhas alaranjadas. Via se pouco da construção, envolta numa espessa massa de nuvens.

Kohtalo, o irmão mais novo sabe que o rosto de Noodlot é o procurado – é ele é o notório criminoso nos reinos desérticos. Foi ele que teve a coragem de ir contra os desígnios do destino que impediam os desejos do indivíduo de existirem livremente naquelas terras. Foi que ele que protestou, advogou pelo uso livre da mandrágora, fora por isso condenado à forca, havia fugido e agora buscava refúgio atravessando escondido todos os reinos desérticos numa busca frenética por um oceano utópico, que talvez nem ali estivesse, talvez nem existisse, onde ele poderia fugir para um outro continente, onde fosse apenas um desconhecido.

Noodlot & Kohtalo

Kohtalo sussurra – Abaixe a cabeça irmão, esconda seu rosto e simule um aleijão. Claudicando, Noodlot passa ombreado por Kohtalo, atravessam o portão cor de abóbora, são ignorados pelos sentinelas e conseguem atravessar pelo outro portão. Um despenhadeiro gigantesco irrompe majestoso como uma estrada sem fim. Descer por entre essas escarpas é alentar contra a própria existência

Noodlot veste botas não apropriadas para aquela descida estreita que alterna pedras vermelhas pontiagudas e areia finíssima amarelo-mostarda. Tropeça na descida, cai alquebrado dentro de uma vala lateral e suplica a Kohtalo. – Uma fumegada, irmão Kohtalo, a mandrágora me chama.

Mandragora_Tacuinum_Sanitatis

Kohtalo retira um pouco da planta macerada de seu alforje ocre, prepara o recipiente e fumam a mandrágora. Noodlot sentado na vala, Kohtalo acocorado nos píncaros da estradilha. Sabem do seu vício, lamentam que ele tenha que ser sanado naquele momento. Conhecem os benefícios do vegetal e sabem também que é ele o culpado por estarem naquela situação periclitante.

Noodlot inebriado pela epifania da mandrágora observa calmamente o solapamento dos sentidos, de soslaio observa acima de seu ombro esquerdo a descida vertiginosa, aparentemente descontrolada de dois cavalos envoltos numa nuvem de poeira, alguns nanosegundos depois percebe que não são dois mais cinco equinos cavalgando furiosamente pela estrada.

O surdo Kohtalo não percebeu quando a carroça descontrolada carregada de toras de madeira passou por cima dele, pelos cascos do cavalo, num toque hediondo, velocíssimo, ao passar do primeiro animal, foi imediatamente lançado precipício abaixo. Impedido de balbuciar o mínimo som, Noodlot apenas fechou os olhos e dormiu.

O Pintor

Convencido que era chegada a hora de seu salto a frente, o pintor acrescentou novos dados à sua prévia pesquisa. Era um processo meio desorganizado de rascunhos que ele fazia nas horas mais impróprias. Quatro horas da madrugada dependurado numa sacada velha, anotava algo em seu caderninho sujo. Enquanto deleitava-se com uma insossa ração lacto-vegetariana, rabiscava a idéia na toalha de papel.

Como transcender? Como através de um quadro alcançar a transcendência que buscava. Isolado em seu ateliê, meditava diariamente nas formas divinatórias que suas matizes buscavam. Costumava ler poesia para inspirar-se. Não eram nas cores e nem nas formas suas dúvidas, e sim a questão da importância da mensagem que deveria passar.

Tropeçou num livro sem capa enquanto caminhava pelo jardim. Este deveria ter caído no último transporte de uma coleção antiga de um cômodo para outro. Na contra-capa não era possível ler o nome do poeta, o que trouxe uma palpitação diferente no coração do pintor.

Adorava ter esta sensação estranha que algo aconteceria. Fisicamente seu corpo dava os sinais, o peito se expandia, as pupilas dilatavam, novos cheiros invadiam sua narina. Na hora em que sentia isso, sabia que o momento se aproximava.

Queria retratar a divindade diáfana, um não-deus, um deus-química. Sentia a morte e a dor dos animais como o poeta sem nome disse na única estrofe que leu. Era a senha, a chave para a conquista do seu objetivo. Mineral, vegetal e animal unidos numa só força. Água, fogo, terra e ar amarrados num só chumaço da poesia colhida peloss pincéis.

Ainda assim sentiu os neurônios balançarem quando sorveu rapidamente suas pílulas. A confluência das duas coisas simultâneas enrijeceu seu braço direito. A necessidade de seus remedinhos junto com a inspiração. A necessidade da transcendência imediata.

Tombou com uma parada cardíaca sem conseguir pintar o tal quadro.

Lamento lambido

Sinto o cheiro do azul decorado
todas as estrelas brilhantes que brilham ao meu lado
saltitam em meu ouvido caro amigo
sou bandido das palavras
grou chinês antigo
um perigo

trago a sabedoria duvidosa
a beleza na formosa via errada
moderno é gay esquisito com cabelo colorido,
meu nome é van gosling eu sou bonito
vim das colinas mais distantes
nas mãos os diamantes
daqueles que controlam mentes
trago o suco da morte
tem a cor da sua alma
que o sabor mais forte
do marrom mais fosco mais cinzento
espalhado pelo chão no crime violento
não é nada mais não é nada não é máfia
não é nada que é normal que é legal ou ilegal
livre favelização da gás para as máfias
mentiras delícias milícias malícias

quanta maledicência grudada caro poeta
seicentas tranqueiras numa fedorenta buceta
entendo bem este nobre vil sentimento de amargor

travor na língua, aguá verde abacate gatorade verde-limão
cianobactérias proliferam-se na minha língua
como crocodilos pulam das pupilas gustativas
amarga tentantiva de ser morta e ser viva
no pântano na sombra vivo a via destemida

certo dia solitário
estudo o eu obtuso
e descubro que o eu verdadeiro
é maior
é melhor
entendo o ontem, o hoje e principalmente
que o amanhã não existe

maldita insatisfação
bendita indagação
na mesma onda
sempre surfarás
mas o mar sempre
será outro

vida, ó vida vadia
bandida, bendita vida
vi através da vitrine
a alma vazia
que passava
vi o vasto mundo
não a importunava
sê livre mané
só isso

poeta imperfeito
o futuro não existe
foda-se se ele é triste
não faça desfeita
desse vez se enjeita
seja deusa ou dona ou dama
seja mais do que a palavra
saiba que o passado é ilusão
pobres planos,são
migalhas na poeira
do infinito
o presente é mais bonito
saiba disso
tenho dito

pela primeira vez editado, Van Gosling cospe forte