Como surgiu a Cidadela Oeste

Em determinado momento a maioria já havia perecido. O céu cor de ocre deixava de ser apenas um delírio tornara-se há muito realidade. O ar rareava, lutavam os pulmões. Tinham sido avisados pelos ouvidos. Ouviram perfeita e claramente um som límpido e cristalino quanto límpido e cristalino pode ser o som. Ouviram e compreenderam as velhas novidades que os cientistas da Organização pregavam. Ouviram e ignoraram. Agora agonizam mutantes embaixo do horizonte plúmbeo.

Adaptaram-se as criaturas. A partir de então moléstias proliferaram-se, deram novo significado à palavra vida. Tão numerosas e diferenciadas entre si eram as espécies de arbovírus que de lá pra cá grassaram livremente pela superfície do planeta que tornou-se impossível distinguir entre a referida vida e seu oposto, a tal da morte. Espécies e subspécies se confudiram, mesclaram e fundiram-se.

O saber sofreu um baque, filósofos debateram o assunto por dezenas de séculos em sua incessante busca. A vida havia sido alterada na sua própria essência. Os que ainda debatiam esta condição o faziam ao lutar pela manutenção da mesma neste surrealista status quo que havia se tornado a vida.

Mantinham-se juntos nos poucos habitáculos que ainda permitiam atividade neurológica de alguma forma. Fora das Cidadelas era praticamente impossível distinguir um reles palmo a sua frente, quanto mais manter sua estrutura molecular intacta.

No início eram duas Cidadelas batizadas geograficamente como Leste e Oeste. Os orientais não mantiveram sua subsistência nos primeiros decênios do século $#&% e desapareceu todo o lado leste. Ironicamente, contam as lendas, que as palafitas afundaram num mar de enxofre.

Subsiste ainda a Cidadela Oeste.

Tandera, abrindo os portais do pântano

Na imagem abaixo, colhida pelos pincéis mágicos de Pedrim Peroba contemple o que sobrou da Cidadela Oriental

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CONTOS LODISTAS ULTRA-MÍNIMOS (tomo II)

Conto do Mangue IV
Esperava pela morte, em silêncio, no escuro. Subitamente, percebeu que não precisava esperar. Levantou-se, apertou o interruptor da luz, e foi atrás dela.

Conto do Mangue V
Pensava na mãe. Os projéteis zuniam por sobre a trincheira. Meteu a mão num bolso, tirou um cigarro amassado do maço, levou-o até a boca, e permaneceu com ele apagado por toda a madrugada.

Conto do Mangue VI
Afundando a canela no lodo, gritava por socorro. Daí veio quem ele menos esperava.

Conto do Mangue VII
— Espere, eu não me lembro de ter feito isso!
— Agora é tarde, Maria. Arranque logo essa peruca vermelha, ponha o vestido e o véu, e esteja na igreja em quinze minutos.

por Pedrim Peroba

CONTOS LODISTAS ULTRA-MÍNIMOS

Conto do Mangue I
— Desplugue o estabilizador.
O que se seguiu foi uma intensa onda de instabilidade.

Conto do Mangue II
— Sai, que eu já não te quero mais!
— Não.
Pausa.
— Ah, então tá…

Conto do Mangue III
A kombi passava, buzinando e roncando. Ultrapassou o sinal vermelho, atropelou três transeuntes, e caiu de cima da ponte rio-niterói sobre um pequeno barco pesqueiro.

por Pedrim Peroba