Aventuras

nesta aventura

quando passos são dados

rumo ao vazio

sabemos que o caminho

é esse mesmo

no infinito sonhamos

com a calma eterna

da completude da missão

será que ela existe?

um caleidoscópio de possibilidades

irrompe como torrente

conseguiremos conseguir chegar

existe fim para essa trajetória

ou somente caminharemos

eternamente.

Abrindo os portões do futuro

Temos visto coisas estranhíssimas nos últimos dias. Vocês se lá estivessem não acreditaram. Todos que aqui visitam tem noção que na verdade não estamos aqui, não é mesmo? Pois é. Nesta nossa saga infinita para conseguirmos sair do pântano psico-poluidor que nos aprisiona, volta e meia conseguimos através de uma nesga enxergar traços da ignóbil realidade.

Mas aí perguntamos a nós mesmos. Será melhor viver assim na ilusão? Não sabemos. Recentemente recebemos a visita de Dundes, Fadas e Gnomos. Pequenos seres que convivem conosco normalmente aqui no limbo interdimensional que habitamos. Cansados de tanta mazela vemos através do espelho mágico que o futuro se imuscui com o passado e nada nunca muda.

Tentamos mudar nosso caminho mas prosseguimos na caminhada. Estamos constantemente tentando sair daqui para dar os recados que nos foram passados pelos nobres pequenos seres mágicos. A Mãe-Natureza que vive aqui no nosso colo, numa espécie de altar pára-religioso, misto de estátua e ser etéreo, ela cansa de nos deixar mensagens cifradas sobre como devemos proceder no caso de conseguirmos alcançar algum tipo de passagem.

Diz ela: Rapazes, caso vocês consigam abrir os famigerados portões, seja eles os de Zion ou outros quaisquer, devem estar preparados para a ignorância. O ser humano lá fora acha que é o dono do universo e o senhor do planeta. Mas ele é frágil e sabe muito pouco meus filhos. Por isso mando meus pequenos servos lhes avisar. O futuro não existirá a não ser que nós queiramos.



É pela pele

É pela pele

que afloram meus defeitos

pus quer sair pela pele

perebas, pústulas, caspa

defeitos intermitentes

pare

palavras novas

trazem dores antigas

palavras livres

loucas vidas

vivas

veja

as

aqui

numa piscina de fracassomaníacos nado contente

fixados em distorcer, estão distorcendo

o tempo

desafiando em ritmo lento

as amarraduras do status-quo

doenças aproximam-se

instala o alcoolismo, a compulsividade,

a loquacidade frenética do nada dizer

a velhice contumaz

o destino do jovem sucesso alheio, a dúvida e a culpa

o nada, os objetivos e tudo o que nos rodeia

quantas palavras dissociadas de significado

fermentam como cerveja, carburam, transformam-se

compostagem cerebral

saindo fora do normal

é assim o genial?

quantos mais acontece, menos eu sei

vou (vamos) desdeusizando tudo quanto podemos

quem saca a mensagem já volta correndo

pelo caminho do mundo ao-contrário

dos tijolos roxos que voam

saltitamos pedra a pedra

em direção a uma nuvem gasosa

um buraco transdimensional etéreo

la é o fim

que bom que chegou a hora de morrer


			

Saltando de dentro da tela

Quem é quem nesse multiverso de fantasias. Na edição passada vimos que nossos heróis encontravam-se perdidos num limbo interdimensional. Através de um aplicativo transmutaram-se em pequenos íons. De dentro de seus leitores eletrônicos saltaram homens coloridos.

Esta literatura elétrica donde pulam super-humanos para a realidade não é um sonho. Da tela de cristal líquido, surgem sob o som de maviosas flautas os novos homens. O profeta, o hipocondríaco, o racional, o bêbado, o fanático, o estudioso e o desligado. Sete faces de um mesmo ser.

Neste tecnomundo, comentaristas e articulistas do vento apenas se dividem em diferentes doutrinas. Metade julga que o que passou passou e não importa mais. O outro terço julga que o passado passou mas é parte vital deste futuro distante. Como não sou bom em matemática, ficou faltando um pedaço que está  a cargo do leitor.

Temos tantas dúvidas. Nessa nossa nação pantanosa, somos super-vilões com frenéticos poderes. O poder de tirar poeira de velhos vinis. O poder de poder vencer, o poder de poder perder. Diretores que passaram por nossa sede sentem sede quando estão em contato conosco.

Acredito que devamos voltar para dentro do sonho. De dentro das telas de cristal líquido podemos vislumbrar as diferentes ondas. Não é crack, não é oxi, não é pó. É vida vivida em forma de gotas, em pequenas pílulas coloridas. Nada disso faz sentido. Viver não faz sentido.

Quando eu contei para Dr.Pangloss as dificuldades que estavamos sofrendo nessa aventura ele me aconselhou: “Querido Devianix III, você já deveria estar careca de saber que é preciso preencher todas as lacunas, nunca se deve terminar o dia sem coonestar um relatório diário completo. No meio do mês, uma prévia do relatório mensal e no fim do mês o dito cujo deve estar aqui presente no pendrive demoníaco de Deus – esta figura que reputo não existir.

De posse da arma Y, uma cortesia do profeta, meu amigo íntimo e um dos sete homens que saltaram da virtualidade para a realidade. Eu, Devianix III, herdeiro dos grande párias do multiverso, posso deslocar o prisma da insanidade. Quero, como bem disse um outro, fundar a Igreja dos Loucos. É isso, é isso! Como não pensei nisso antes.

Será uma comunhão de bizarros que salvará este pobre planeta, aqui o que se dá – planta. Pobre de mim – pobre de nós. Vamos acionar a arma Y e esperar para ver se o raio colorido que de lá sairá vai adiantar alguma coisa.

Devianix III

Tontura Piração Paraíso

vamos navio navegaí vazio

A piração junto com a mania
cria o mal estar e a fobia;
o desvio dá arrepio
e a certeza de ter escolhido certo
o caminho errado
quando o destino menino veneno
vira só o duodeno –
o apelo é a sequela
não inventa, se assemelha
está sempre a procura da centelha
incendeia, na candura da serpente que alheia
morde a nuca de todo aquele pretendente
a ser algo a ser mais do que só gente.

Fronteira

Essa história se passa numa inóspita fronteira. Não se sabe se entre o sonho e a realidade ou se apenas um fronteira entre dois reinos longínquos, imaginários e esquecidos. O sol causticante a todos castigava já no alvorecer. Era sabido naquela região de montanhas desérticas o ar rarefeito e o calor demoníaco eram dois adversários a mais na luta pela sobrevivência. Nas últimas décadas as temperaturas todavia estavam cada vez mais escorchantes.

Os dois moribundos irmãos vinham cambaleando nervosos pela íngreme e pedregosa estradinha que levava ao cume. Esgueirando-se entre os precipícios sentiram os primeiros raios solares que espantavam a madrugada, o céu em tons de púrpura e âmbar anunciava o fim da noite companheira, que os ajudara a passarem despercebidos até ali.

Noodlot, o mais velho e Kohtalo, o caçula, chegaram até o topo da montanha. Vestiam trapos impregnados pelas agruras e tons do deserto cor de açafrão, mendigos amarelados, cheios de areia por todos os poros. Extenuados, vislumbraram ao fim de uma caminhada de cinquenta passos um posto de fronteira encravado entre as cordilheiras gêmeas.

reinos desérticos

Um posto precário, construído com paliçadas de madeira e um campanário de pedra-sabão, habitado por seis ou sete guardas, um posto como outro qualquer com a diferença de estar localizado no meio do nada no alto das montanhas alaranjadas. Via se pouco da construção, envolta numa espessa massa de nuvens.

Kohtalo, o irmão mais novo sabe que o rosto de Noodlot é o procurado – é ele é o notório criminoso nos reinos desérticos. Foi ele que teve a coragem de ir contra os desígnios do destino que impediam os desejos do indivíduo de existirem livremente naquelas terras. Foi que ele que protestou, advogou pelo uso livre da mandrágora, fora por isso condenado à forca, havia fugido e agora buscava refúgio atravessando escondido todos os reinos desérticos numa busca frenética por um oceano utópico, que talvez nem ali estivesse, talvez nem existisse, onde ele poderia fugir para um outro continente, onde fosse apenas um desconhecido.

Noodlot & Kohtalo

Kohtalo sussurra – Abaixe a cabeça irmão, esconda seu rosto e simule um aleijão. Claudicando, Noodlot passa ombreado por Kohtalo, atravessam o portão cor de abóbora, são ignorados pelos sentinelas e conseguem atravessar pelo outro portão. Um despenhadeiro gigantesco irrompe majestoso como uma estrada sem fim. Descer por entre essas escarpas é alentar contra a própria existência

Noodlot veste botas não apropriadas para aquela descida estreita que alterna pedras vermelhas pontiagudas e areia finíssima amarelo-mostarda. Tropeça na descida, cai alquebrado dentro de uma vala lateral e suplica a Kohtalo. – Uma fumegada, irmão Kohtalo, a mandrágora me chama.

Mandragora_Tacuinum_Sanitatis

Kohtalo retira um pouco da planta macerada de seu alforje ocre, prepara o recipiente e fumam a mandrágora. Noodlot sentado na vala, Kohtalo acocorado nos píncaros da estradilha. Sabem do seu vício, lamentam que ele tenha que ser sanado naquele momento. Conhecem os benefícios do vegetal e sabem também que é ele o culpado por estarem naquela situação periclitante.

Noodlot inebriado pela epifania da mandrágora observa calmamente o solapamento dos sentidos, de soslaio observa acima de seu ombro esquerdo a descida vertiginosa, aparentemente descontrolada de dois cavalos envoltos numa nuvem de poeira, alguns nanosegundos depois percebe que não são dois mais cinco equinos cavalgando furiosamente pela estrada.

O surdo Kohtalo não percebeu quando a carroça descontrolada carregada de toras de madeira passou por cima dele, pelos cascos do cavalo, num toque hediondo, velocíssimo, ao passar do primeiro animal, foi imediatamente lançado precipício abaixo. Impedido de balbuciar o mínimo som, Noodlot apenas fechou os olhos e dormiu.

Masmorra

Preso sob sete metros de paredes espessas de lodo. Não era a melhor definição de diversão. Estava literalmente enterrado vivo numa masmorra subaquática em algum lugar da Cidadela Oeste. Articular mentalmente seus poderes mutantes será a única saída dessa situação.

Uma averiguação visual é aprimeira coisa a ser executada. Úmido, o chão afunda sob meus pés. Uma areia preta grossa é o fundo da minha cela. Muito abafado aqui dentro. A fumaça cinza do metano impregna tudo.

Deve estar 40 graus aqui, a única iluminação vem de uma luminária de vaga-lumes que pende imóvel do teto. Quase posso alcançar a luminária com apenas um toque. O teto, uma grossa camada impenetrável de raízes está a aproximadamente um metro e noventa do chão.

Este compartimento com cinco metros de largura é o meu confinamento. Pelo menos a quantidade de vermes nematóides é farta por aqui. Nunca fico com fome. Uma forma de proteína pura que absorvo e que sinto, vem me alterando, pouco a pouco. Serei um nematóide brevemente. Terei a amplidão de todos os habitats? Estarei na terra, embaixo dela. Parasitando em simbiose no mar, atachado aos grandes leviatãs, magnanimamente alvançando vários metros em extensão físico-mental.

Meu único olho que funciona não ostentava mais seu brilho natural alaranjado, mas ainda podia sentir que receberia visitas em breve. O cheiro da megavegetofauna surrupiava de longe meu olfato. O olho captava todo o cheiro. Não estava errado. Um grande ser se manifestou, formando-se como uma massa biovegetal em ebulição nuclear. Era a presença química divina. Transmutar terrosamente com esse tipo de energia era sim meu objetivo. O clímax que busquei desde que parti.

mas morra

Nunca erro. Sabia que aquele era o momento perfeito da fusão. Concentração máxima para conseguir lançar no cosmos os pulsares medulares. O transe é difícil de alcançar. Apenas uma vez consegui. Todavia não alcancei o sétimo plano. Permaneci ali inerte, solerte, destinado a passar mais cinquenta anos naquela masmorra fétida. O que são cinquenta anos para quem já está aqui há trezentos e cinquenta anos buscando a escuridão da alma absoluta.

A fusão objetiva a eliminação da capacidade pensante, a epifania suicida tende à união do ser com o âmago da eternidade. O sétimo plano, uma utopia constante, uma quase lenda, um talvez, um quase, uma tentativa, tratando-se disso. Era o desejo: Uma fusão hostil ou harmônica com o absoluto.

Mais uma falha e o próximo ciclo de oportunidades seria ainda mais obscuro. Tem dúvidas?

A cor do cheiro

a cor do cheiro dessa palavra

inebria-nos constantemente

sinto o odor da larva

que pulsa nascendo urgente

ela diz a verdade

que cabe em um poema

super grilous family

outros poemastem outras verdades

ela diz que somos estrelas

no céu;grãos

de areia

peças pequenas

no multiverso


veja só você


o inverso d´eu

é tu que somos todos

os gafanhotos golfando

as maçanetas de madeira morta

vasta floresta ombrando deus

deus obra sua deusdade sendo eu

dobrem-se impunes

não estão imunes

ao ódio meu

Pitangus sulphuratus

O Pintor

Convencido que era chegada a hora de seu salto a frente, o pintor acrescentou novos dados à sua prévia pesquisa. Era um processo meio desorganizado de rascunhos que ele fazia nas horas mais impróprias. Quatro horas da madrugada dependurado numa sacada velha, anotava algo em seu caderninho sujo. Enquanto deleitava-se com uma insossa ração lacto-vegetariana, rabiscava a idéia na toalha de papel.

Como transcender? Como através de um quadro alcançar a transcendência que buscava. Isolado em seu ateliê, meditava diariamente nas formas divinatórias que suas matizes buscavam. Costumava ler poesia para inspirar-se. Não eram nas cores e nem nas formas suas dúvidas, e sim a questão da importância da mensagem que deveria passar.

Tropeçou num livro sem capa enquanto caminhava pelo jardim. Este deveria ter caído no último transporte de uma coleção antiga de um cômodo para outro. Na contra-capa não era possível ler o nome do poeta, o que trouxe uma palpitação diferente no coração do pintor.

Adorava ter esta sensação estranha que algo aconteceria. Fisicamente seu corpo dava os sinais, o peito se expandia, as pupilas dilatavam, novos cheiros invadiam sua narina. Na hora em que sentia isso, sabia que o momento se aproximava.

Queria retratar a divindade diáfana, um não-deus, um deus-química. Sentia a morte e a dor dos animais como o poeta sem nome disse na única estrofe que leu. Era a senha, a chave para a conquista do seu objetivo. Mineral, vegetal e animal unidos numa só força. Água, fogo, terra e ar amarrados num só chumaço da poesia colhida peloss pincéis.

Ainda assim sentiu os neurônios balançarem quando sorveu rapidamente suas pílulas. A confluência das duas coisas simultâneas enrijeceu seu braço direito. A necessidade de seus remedinhos junto com a inspiração. A necessidade da transcendência imediata.

Tombou com uma parada cardíaca sem conseguir pintar o tal quadro.

Somos sujos

que cor é essa?

Somos do esgoto, sujos.
Curtindo poesia-merda-cocô,
cianobactérias, gatoradeverdeatômico,
sopa de ervilha que o moscatelli falou.

Nessa fedentina
nem incenso me anima,
ânimo exaltado pelo cheiro do metano,
sulfídrico surfante no tapete d´alga mutante

Hesitante lodo…ovo podre…ovo da serpente-crocodilo;
Nesse instante nasce fulgurante neste seu cascudo estilo;
No esgoto, nosseu próprio perdigoto
nunca nunca se esgota, não seja idiota.

Biólogo Mário Moscatelli