Pântano

Onde nascemos nós os mutantes
É o pântano pleno de água abundante
Charco plano cheio de vida
Mangue molhado da morte sofrida
Entulho atolado enlameado
Vapores sulforosos sobem rumo ao céu almiscarado
Pantanal, Paraguai, Manguetown
Para com isso pantaneiro
Inundação aqui no meu terreiro
do Brejo um beijo
lamaçal
Podre é o nosso poder
Nada aqui nunca resseca
Sapo, rã, jacaré, perereca
Maguari, socó, biguá já tá careca
Capivara, anta, onça
Todos juntos na mesma dança
Lá na casa do gambá
Vamos todos festejar
Aqui no pântano é o que há
Sabe lá se o sabiá sabia assoviar
Ele veio pra contar
É o must
ser lacustre
Vamos todos se afogar
Um gostinho desse lodo
Some partes mais que o todo

http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A2ntano

http://desciclo.pedia.ws/wiki/P%C3%A2ntano

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O Sonho

Aos pingos o que achavamos sólido se dilui
certezas escorrem por baixo da mesa
perguntas revolteiam num quicar insólito
e nunca o sonhado acontece.

O sonho – cada dia diferente
a vida – vazio vapor indiferente
conexão reiniciada
durante o carregamento da mágoa.

macaquices brasilianas

A coragem de recomeçar novamente
num circo infinito,
um ciclo bem cíclico.
A repetição do garoto-homem
duvidando da verdade da vida
dourado sonho no alto da montanha
um sábio barbudo me contou – era eu*
era deus que era eu
falou – Saia e conte essa novidade ao mundo
não existe salvação
não existe perdão
eu sou apenas um homem
um sábio barbudo
numa caverna imunda
que nada sei
pele
pelo
pulo…

A cor do cheiro

a cor do cheiro dessa palavra

inebria-nos constantemente

sinto o odor da larva

que pulsa nascendo urgente

ela diz a verdade

que cabe em um poema

super grilous family

outros poemastem outras verdades

ela diz que somos estrelas

no céu;grãos

de areia

peças pequenas

no multiverso


veja só você


o inverso d´eu

é tu que somos todos

os gafanhotos golfando

as maçanetas de madeira morta

vasta floresta ombrando deus

deus obra sua deusdade sendo eu

dobrem-se impunes

não estão imunes

ao ódio meu

Pitangus sulphuratus

Sonho bom

quando acordo catatônico

catando coisas pelo chão

preso num quarto sujo

escuridão

abro olhos entrelaçados

costurados com carniça

sempre esta mesma delícia

no reinado baudeleriano

me apresento todo ano

sou o bobo da corte brincando

sou o olho que vê o engano

o inverso o interno do seu corpo

já imaginou o tamanho do susto?

Será que encaras com gosto?

Sou malandro profundo desgosto

E eu trago só um balde de esgoto

Sempre anda comigo o desgosto

Que´ncosto

Silicose mental

Urubus farejam a nova carniça,

cutucam, mordiscam,  não são ameaça.

Tão forte viva morte me atiça,

todos juntos aspirando cinzas

saídas da vulva de um vulcão psicótico

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.

Esta vida não tem versão beta;

morte eterna jamais inquieta,

em sumo meu sonho de consumo é consumir um sonho

Morfeu defunto morreu risonho.

Por Sombr-1-o

Tema o tempo

A obsessão do relógio
é um delírio persecutório complexo.
Malditos minutos mentais metidos em mim;
na balada incansável dos ponteiros
sou um reles súdito dos segundos sangrentos
cada volta –  um suplício.

tic-tac, temo que o tempo voe
tic-tac, temo que a tempo exista
tic-tac, volta logo passado torto
tica-tac, chega logo futuro livre

Nesta avalanche confusa,
um turbilhão paralaxiano ameaça
sufocar inúteis novidades
nanomilésimo fragmento de sanidade
com a velocidade que vem voando
é capaz
de estilhaçar
sua caixa craniana

por Indigo Diz


Vidas Secas

Numa dica paradoxal para se ler no nosso querido e úmido Pântano recomendaremos hoje o clássico Vidas Secas do escritor alagoano Graciliano Ramos.

http://www.graciliano.com.br/

http://pt.wikipedia.org/wiki/Graciliano_Ramos

Vidas Secas é o quarto livro de Graciliano e foi publicado em 1938. Verdadeiro poema em prosa conta com sua linguagem ultra brasileira as desventuras duma família errante pelo sertão nordestino.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vidas_Secas

Uma história cativante, comovente, verossimilhante, política e principalmente humana. Graciliano conta-nos como o ciclo da seca inclemente influencia e mesmo molda a vida dos nordestinos de sua época e de hoje também. Um livro que nos ajuda e entender o Brasil de hoje e de ontem.

Inspirou também um filme do diretor Nélson Pereira dos Santos de 1963

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vidas_secas_%28filme%29

Para completar retiro da contracapa da 29ª edição um trecho escrito pelo prefaciador Álvaro Lins que resume o espírito do livro:

“Além de ser o mais humano e comovente dos livros de ficção do Sr. Graciliano Ramos, VIdas Secas é  o que contém maior sentimento da terra nordestina, daquela parte que é áspera, dura e cruel, sem deixar de ser amada pelos que a ela estão ligados telúricamente. O que impulsiona o seres desta novela, o que lhes marca a fisionomia e os caracteres, é o fenômeno da seca.”

Um futuro fudido

olhando pro futuro

saberá que no futuro o amor valerá créditos
dowloandáveis e trocáveis por mil traquintandas
interessantíssimas santíssimas trindades novas
dinheiro-moda-coração vazio
conecta sua mente
com a tomada mais próxima
quanto mais apaixonada estiveres
mais perto estarás daquela louis vitton tão desejada

a morte espreita

as vezes acho que eu sou mais que um
as vezes acho que eu sou você
e nós dois somados somos tudo
e divididos somos nada
e deuses que somos
podemos escolher
para onde
por que
e até quando
tudo acabará

chegou, acabou pra ele

bleeeergh – água suja again!

Entre dúvidas e caminhos

continuamos a andar para trás

nesta estrada bolorenta

vejo o pretérito e o futuro-mais-que-perfeito

e lá sonho estar

este poder não é uma dádiva

desde que aqui cheguei

vindo de lugar incerto

sofro, sonho e sofro novamente

leões olham para mim e não rugem

esguelham-se, deitam e dormem novamente

em cada sonho lembro que aqui é tudo meio estranho

não sei ao certo a razão de ter aqui chegado

só sei que nada sei, socraticamente continuo

pergunto: se isso é assim pra mim

que sou deus

imagine para todos os outros

que deus também são

os biguás, as capivaras, as garças, os jacarés, os colhereiros

as cianobactéricas -cor de gatorade verde-atômico

é – sou água, sou lixo, sou o anti-luxo

sou você, você sou (e) é eu também

São Rock Damião e outras coisitas más

SRD_DIA1907_verde

Feliz é o burro

Que não sabe o que é bom

Feliz é o novo

Que não vive o que é ruim

Feliz não existe

Só existe ser triste

Fiel à infelicidade

meu dedo em riste