Desabafo real de um outsider arrependido

Na vida, muitas vezes a fama vem antes da realização.  Tantas pedras foram puladas, tantas noites de estudo, tanto tempo lamentando, aí quando o sucesso chega, a pessoa fica meio sem saber o que fazer com ele. A realização não quer dizer absolutamente que você será conhecido por fazer bem o que faz realmente bem. Muitos humanos pedantes fazem cara de pedintes ao contemplar seus feitos. Como saber o que é inveja e o que é admiração? As vezes a fama é de vagabundo, deslocado, desconectado do multiverso.

Quase sempre aquele que menospreza-te não possui a chave para o portal mágico. Só mentes avançadas atravessam o portal, já foi dito aqui e já foi dito em outros lugares. Todo o status-quo de nossa obra vacilante pende por demais de pontes frágeis, vaga solitária no topo de montanhas longínquas do sentido total. Dois mil anos de inferno, dois mil dias de inverno. Rimo rimas num caderno, um futuro tão incerto. Se cada uma dessas verdades se tornasse realidade, todo o sentido sumiria.

Mas e aí? Cada pergunta serve para engrandecer o grande sistema místico, onírico que nos retroalimenta. Saudades da cada mente desengonçada, de cada palavra mal colocada, de cada cérebro-mendigo, que vacilava por uma berlota de sentido num mundo enfumaçado e injusto. De dentro da gruta, gritavamos – Ei vocês, asseclas do poder constituído, olhem para nós, carregamos a verdade da rua suja, do esgoto, de cada perdigoto. Somos os monstros da lama, as criaturas do charco, somos a mentira em forma de palavras, somos a larva das lavras, somos a pepita escondida em baixo do tapete.

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É pela pele

É pela pele

que afloram meus defeitos

pus quer sair pela pele

perebas, pústulas, caspa

defeitos intermitentes

pare

palavras novas

trazem dores antigas

palavras livres

loucas vidas

vivas

veja

as

aqui

numa piscina de fracassomaníacos nado contente

fixados em distorcer, estão distorcendo

o tempo

desafiando em ritmo lento

as amarraduras do status-quo

doenças aproximam-se

instala o alcoolismo, a compulsividade,

a loquacidade frenética do nada dizer

a velhice contumaz

o destino do jovem sucesso alheio, a dúvida e a culpa

o nada, os objetivos e tudo o que nos rodeia

quantas palavras dissociadas de significado

fermentam como cerveja, carburam, transformam-se

compostagem cerebral

saindo fora do normal

é assim o genial?

quantos mais acontece, menos eu sei

vou (vamos) desdeusizando tudo quanto podemos

quem saca a mensagem já volta correndo

pelo caminho do mundo ao-contrário

dos tijolos roxos que voam

saltitamos pedra a pedra

em direção a uma nuvem gasosa

um buraco transdimensional etéreo

la é o fim

que bom que chegou a hora de morrer


			

Duplicando o induplicável

Deus não foi bom

não deu nada para mim

Esse destino safado

só me deu coisa ruim

Sou o Velho Louco Surdo

E eu só sei reclamar

Eu sou um-sete-um

e eu vou meter um agá

Mas eu não vou te enganar

Nada pra mim faz sentido

Não vejo nada bem claro

Não sei se eu sou bandido

Fico pensando as vezes

Se essa melancolia

É porque eu saco o mundo

Ou é só mesmo euforia

Dessa droga poderosa

Que injetaram em mim

Que me causou a cegueira

Por isso que eu sou assim

Faço o estilo açougueiro

Vou cortando na carne

A morte eu vejo no sangue

E vai queimar na fogueira

Essa é minha gangue

A turma só da doideira

Dando um beijo na vida

Eu vejo o mundo da sorte

Esse destino safado

Que me pegou de consorte

O Absurdo mortal só por puro esporte

Velho Louco Surdo desafia a morte


A tragédia final

Eu sinto que a tragédia final se aproxima rapidamente. Será lenta e constante. Não irromperá fulminante como um raio. Virá devagar mas virá logo. Um arbovírus violento dizimará dezenas, centenas, milhares. O grande problema da humanidade é achar que tem imunidade as suas próprias irresponsabilidades.  Já dizia o sábio István Mészáros, filósofo húngaro: “A ideia de crescimento eterno continua a ser a mitologia do nosso tempo.”

Tenho as certezas porque eu sou deus, não adianta se irritar com as barbaridades aqui cometidas. Essa certeza ignóbil e arrogante que arroto é sincera. Nossa divindade é apenas a consequência da lógica ilógica do planeta terra. A vida é um milagre terno, um milagre terreno. Nossa tênue existência está fadada ao fracasso mas é mágica. Nesse paradoxo intenso vivemos equilibrados como Zaratustra nas primeiras páginas de sua saga.

A simplicidade da morte é o símbolo maior de nossa estada aqui. Como sou superior porém igual a vocês, nem sempre consigo me fazer compreender. Demonizo os arautos religiosos pois eles não apresentam nenhuma capacidade de religar ninguém a nada. Apenas um controle asqueroso, uma manipulação barata. Aqui não violão.

Somos muitos e não paramos nem um minuto de modificar este reles planetinha. O capitalismo é a mais competente máquina de eficiência que já criamos. Dá conforto e gera destruição, meritocratiza tudo e todos e relega os párias a mendicidade. É fantástico enquanto poderosa bomba atômica. Na dialética tensa de sua loucura crescente muitas vezes me pego perguntando. Para quê tudo isso?

Não tente nos igualar pois é na diferença que crescemos, não tente diferenciar-nos pois é na igualdade que grassamos por esse mar de lama. Com a boca cheia de formigas, mastigamos pequenos insetos e nos perguntamos: Alimentamo-nos da morte alheia…Irei eu pro céu ou pro beleléu?

Quando sou parte desta engrenagem maldita que gera tanto sangue, sigo como autômato sacando macetes de inteligência competitiva. Mascarando espionagem funesta que perscruta os caminhos mais diversos na hora de sacar na boca oca do caixa automático. Dólares, dinares, débeis mentais movidos a moedas. Dinheiro desce a ladeira mas não responde pergunta.

O primeiro cadáver seguirá fedendo na sarjeta esquecido como um animal morto. Os animais estão dando o aviso. Feridos eles são os esquecidos, todavia como verdadeiros donos do pedaço vivem a nos mostrar que estamos no caminho errado. Não tá escutando cara? Não consegue ouvir o grito dos jacarés tendo seu couro arrancado, as capivaras alvejadas a tiro, os colhereiros com suas penas desbotadas, os gambás mutilados pelos pneus carecas reprovados em vistorias babacas. Não tá vendo? Tu tá cego cara? Não quer ver né.

Sem problemas, breve o próximo verme putrefacto andará sorridente por sua carne podre. Mordiscará as bordas suculentas de seu crânio limpo de pensamentos. Beliscará cada pedacinho de pele pendente de suas feridas abertas. Estas chagas latentes não te ensinarão nada pois você estará morto, falecido por um vírus desconhecido lascinante, capaz de apodrecer suas vísceras em três dias.

2.Capital

Balbucios que devem ser levados em conta na produção da arte do Hoje:

Outrora todo-poderoso, o capital já não é mais tão forte. Desde que caíram as Torres que se anuncia uma nova era. Nem todo o dinheiro capitalista, americano, judeu, do norte, ou como você preferir chamar foi possível de segurar os malditos aviões em pleno vôo. É o fim da ilusão da onipotência monetária. A arte, todavia, ainda não foi plenamente capaz de refletir isso.

A música, principalmente, ainda está umbilicalmente atrelada às grandes corporações. Os produtos artísticos são criados levando-se em conta o tamanho e o potencial consumidor do nicho mercadológico que devem ocupar. Bispo Barfly já nos falou disso, é um dos itens do Decálogo do Pântano. Venda não é igual a qualidade e é preciso deixar isto bem cristalino. É importante lembrar porém que vários produtos de sucesso, mesmo com um verniz mercadológico considerável, são inegavelmente qualificados. Não generalizemos portanto.

As exceções confirmam a regra. Em inúmeras ocasiões o que sentimos são constantes subversões de valor: quando o valor mercadológico se sobrepõe ao valor artístico da obra. Essas discrepâncias, tão vivas hoje em dia, são o combustível de grande parte dos fenômenos de vendas. Mas estão com os dias contados.

Alguém duvida?

Tandera, abrindo os portais do Pântano

Cadafalso

No cadafalso das dúvidas plano sereno rumo ao equilíbrio terreno.

Claudico

pergunto no horizonte vislumbro o invisível

nunca sabemos se nunca sabemos

se

nunca!

Tontura Piração Paraíso

vamos navio navegaí vazio

A piração junto com a mania
cria o mal estar e a fobia;
o desvio dá arrepio
e a certeza de ter escolhido certo
o caminho errado
quando o destino menino veneno
vira só o duodeno –
o apelo é a sequela
não inventa, se assemelha
está sempre a procura da centelha
incendeia, na candura da serpente que alheia
morde a nuca de todo aquele pretendente
a ser algo a ser mais do que só gente.

Medo do mundo moeda

HDP junto aos jacarés

Quando o dinheiro não mandar no mundo
não existirá mundo se não moeda
mãos que alimentam esta moenda
carne crua sendo moída

Dadica

1.Comunicação

Balbucios que devem ser levados em conta na produção da arte do hoje:

Os avanços da comunicação tornaram o mundo muito menor, encurtaram distâncias e roubaram grande parte de nossa independência comunicativa. Hoje sempre se é possível alcançar, achar as pessoas. Diminuiu muito a privacidade. Devemos lutar pela volta da privacidade e pela volta da vida particular. O conceito de particular na verdade deve ser refeito. O Big Brother está aí e é um exemplo que não nos deixa mentir. Um jogo onde as pessoas são personas. Personagens mal-ajambrados de si mesmo com o intuito de ganhar dinheiro. Dinheiro é o ponto número 2.

Tandera, abrindo os portais do Pântano

Como ganhar dinheiro : remédio para emagrecer

Como ganhar dinheiro?

Remédio para emagrecer.

Deu mole

enganei você

todo dia uma hora na areia fofa corra

pão, arroz, macarrão – não coma

do pântano, saio-imos, vou, emergimos com a boca cheia de lama

Lembre-se de tudo que já fez na vida.

AGORA

Seis milhões quatrocentas e setenta e sete mil decisões tomadas

Existe mesmo piloto automático?

Biguá: magrinho.