O jacaré que morava na boca

josé jacaré collage

Meu nome é José Jacaré
moro dentro da boca dum zé-mané
Pequeno, vejo grande
Escondido, sei de tudo
Aguardando, a hora do bote
Alimento-me quando há sorte
Sou cascudo, sou forte
Sou sinistro, conheço a morte
Aguarde-me pois bolei um mote
e sei bem onde fica o norte

A tragédia final

Eu sinto que a tragédia final se aproxima rapidamente. Será lenta e constante. Não irromperá fulminante como um raio. Virá devagar mas virá logo. Um arbovírus violento dizimará dezenas, centenas, milhares. O grande problema da humanidade é achar que tem imunidade as suas próprias irresponsabilidades.  Já dizia o sábio István Mészáros, filósofo húngaro: “A ideia de crescimento eterno continua a ser a mitologia do nosso tempo.”

Tenho as certezas porque eu sou deus, não adianta se irritar com as barbaridades aqui cometidas. Essa certeza ignóbil e arrogante que arroto é sincera. Nossa divindade é apenas a consequência da lógica ilógica do planeta terra. A vida é um milagre terno, um milagre terreno. Nossa tênue existência está fadada ao fracasso mas é mágica. Nesse paradoxo intenso vivemos equilibrados como Zaratustra nas primeiras páginas de sua saga.

A simplicidade da morte é o símbolo maior de nossa estada aqui. Como sou superior porém igual a vocês, nem sempre consigo me fazer compreender. Demonizo os arautos religiosos pois eles não apresentam nenhuma capacidade de religar ninguém a nada. Apenas um controle asqueroso, uma manipulação barata. Aqui não violão.

Somos muitos e não paramos nem um minuto de modificar este reles planetinha. O capitalismo é a mais competente máquina de eficiência que já criamos. Dá conforto e gera destruição, meritocratiza tudo e todos e relega os párias a mendicidade. É fantástico enquanto poderosa bomba atômica. Na dialética tensa de sua loucura crescente muitas vezes me pego perguntando. Para quê tudo isso?

Não tente nos igualar pois é na diferença que crescemos, não tente diferenciar-nos pois é na igualdade que grassamos por esse mar de lama. Com a boca cheia de formigas, mastigamos pequenos insetos e nos perguntamos: Alimentamo-nos da morte alheia…Irei eu pro céu ou pro beleléu?

Quando sou parte desta engrenagem maldita que gera tanto sangue, sigo como autômato sacando macetes de inteligência competitiva. Mascarando espionagem funesta que perscruta os caminhos mais diversos na hora de sacar na boca oca do caixa automático. Dólares, dinares, débeis mentais movidos a moedas. Dinheiro desce a ladeira mas não responde pergunta.

O primeiro cadáver seguirá fedendo na sarjeta esquecido como um animal morto. Os animais estão dando o aviso. Feridos eles são os esquecidos, todavia como verdadeiros donos do pedaço vivem a nos mostrar que estamos no caminho errado. Não tá escutando cara? Não consegue ouvir o grito dos jacarés tendo seu couro arrancado, as capivaras alvejadas a tiro, os colhereiros com suas penas desbotadas, os gambás mutilados pelos pneus carecas reprovados em vistorias babacas. Não tá vendo? Tu tá cego cara? Não quer ver né.

Sem problemas, breve o próximo verme putrefacto andará sorridente por sua carne podre. Mordiscará as bordas suculentas de seu crânio limpo de pensamentos. Beliscará cada pedacinho de pele pendente de suas feridas abertas. Estas chagas latentes não te ensinarão nada pois você estará morto, falecido por um vírus desconhecido lascinante, capaz de apodrecer suas vísceras em três dias.

Cry for nature

There´s no need to understand life

Just live it

As long as you´re alive

It´s a blessing

From a God that does not exist

In your mind there´s a void

In your soul there´s no joy

Why live like that?

While forests are being torn down

Lakes are getting dry

Humans are to blame

Animals have no name

They just are

We rate beyond them

We play a dirty game

No one should complain

No one should demand

Na margem do rio

Vocêu não estamos entendendo

Andam respirando ácidos vapores

Esta fumaça leitosa que d´água sobe

Névoa maligna, eflúvios em sua fronte

Será a razão de tanta mágoa?

Envenena as mentes, penetráveis insolentes

É Tiririca ou Oiticica? Toda merda é titica?

Meu sonho de consumo é consumir um sonho insano

Sensações intermitentes, calafrios desumanos

Consumamos! Consumamos! Nessas tetas nós mamamos

Somos só trapos e panos. Estes dias estressantes

hão de nos tornar mutantes

respirando cigarrilhas, extorquindo camarilhas

vestindo-se com o couro do jacaré

extinto – seremos a mancha da tinta

o osso velho d ´um  arqueologista

estranhamento – esse estranho momento

é mais que poesia, foi como eu vi esse eterno dia

obra de Barbazul

croc king croc

this is king croc, my old-time buddy

croc

croc