Planejamento

cada plano que fizemos

e nada aconteceu

tantos planos em vão

sonhos futuros

fazer pouco caso dos moribundos

no melhor do mundos

previsões apocalípticas

adoramos esta técnica

riffs rasgam o vento

som que dá o choque térmico

vendo veleidades maravilhosas

através de vídeos onde idéias

planam loucas por um céu de besteiras inóspitas

fugimos, fugimos distantes

mas como lagartixas abandonamos o próprio rabo

Duplicando o induplicável

Deus não foi bom

não deu nada para mim

Esse destino safado

só me deu coisa ruim

Sou o Velho Louco Surdo

E eu só sei reclamar

Eu sou um-sete-um

e eu vou meter um agá

Mas eu não vou te enganar

Nada pra mim faz sentido

Não vejo nada bem claro

Não sei se eu sou bandido

Fico pensando as vezes

Se essa melancolia

É porque eu saco o mundo

Ou é só mesmo euforia

Dessa droga poderosa

Que injetaram em mim

Que me causou a cegueira

Por isso que eu sou assim

Faço o estilo açougueiro

Vou cortando na carne

A morte eu vejo no sangue

E vai queimar na fogueira

Essa é minha gangue

A turma só da doideira

Dando um beijo na vida

Eu vejo o mundo da sorte

Esse destino safado

Que me pegou de consorte

O Absurdo mortal só por puro esporte

Velho Louco Surdo desafia a morte


Saltando de dentro da tela

Quem é quem nesse multiverso de fantasias. Na edição passada vimos que nossos heróis encontravam-se perdidos num limbo interdimensional. Através de um aplicativo transmutaram-se em pequenos íons. De dentro de seus leitores eletrônicos saltaram homens coloridos.

Esta literatura elétrica donde pulam super-humanos para a realidade não é um sonho. Da tela de cristal líquido, surgem sob o som de maviosas flautas os novos homens. O profeta, o hipocondríaco, o racional, o bêbado, o fanático, o estudioso e o desligado. Sete faces de um mesmo ser.

Neste tecnomundo, comentaristas e articulistas do vento apenas se dividem em diferentes doutrinas. Metade julga que o que passou passou e não importa mais. O outro terço julga que o passado passou mas é parte vital deste futuro distante. Como não sou bom em matemática, ficou faltando um pedaço que está  a cargo do leitor.

Temos tantas dúvidas. Nessa nossa nação pantanosa, somos super-vilões com frenéticos poderes. O poder de tirar poeira de velhos vinis. O poder de poder vencer, o poder de poder perder. Diretores que passaram por nossa sede sentem sede quando estão em contato conosco.

Acredito que devamos voltar para dentro do sonho. De dentro das telas de cristal líquido podemos vislumbrar as diferentes ondas. Não é crack, não é oxi, não é pó. É vida vivida em forma de gotas, em pequenas pílulas coloridas. Nada disso faz sentido. Viver não faz sentido.

Quando eu contei para Dr.Pangloss as dificuldades que estavamos sofrendo nessa aventura ele me aconselhou: “Querido Devianix III, você já deveria estar careca de saber que é preciso preencher todas as lacunas, nunca se deve terminar o dia sem coonestar um relatório diário completo. No meio do mês, uma prévia do relatório mensal e no fim do mês o dito cujo deve estar aqui presente no pendrive demoníaco de Deus – esta figura que reputo não existir.

De posse da arma Y, uma cortesia do profeta, meu amigo íntimo e um dos sete homens que saltaram da virtualidade para a realidade. Eu, Devianix III, herdeiro dos grande párias do multiverso, posso deslocar o prisma da insanidade. Quero, como bem disse um outro, fundar a Igreja dos Loucos. É isso, é isso! Como não pensei nisso antes.

Será uma comunhão de bizarros que salvará este pobre planeta, aqui o que se dá – planta. Pobre de mim – pobre de nós. Vamos acionar a arma Y e esperar para ver se o raio colorido que de lá sairá vai adiantar alguma coisa.

Devianix III

2.Capital

Balbucios que devem ser levados em conta na produção da arte do Hoje:

Outrora todo-poderoso, o capital já não é mais tão forte. Desde que caíram as Torres que se anuncia uma nova era. Nem todo o dinheiro capitalista, americano, judeu, do norte, ou como você preferir chamar foi possível de segurar os malditos aviões em pleno vôo. É o fim da ilusão da onipotência monetária. A arte, todavia, ainda não foi plenamente capaz de refletir isso.

A música, principalmente, ainda está umbilicalmente atrelada às grandes corporações. Os produtos artísticos são criados levando-se em conta o tamanho e o potencial consumidor do nicho mercadológico que devem ocupar. Bispo Barfly já nos falou disso, é um dos itens do Decálogo do Pântano. Venda não é igual a qualidade e é preciso deixar isto bem cristalino. É importante lembrar porém que vários produtos de sucesso, mesmo com um verniz mercadológico considerável, são inegavelmente qualificados. Não generalizemos portanto.

As exceções confirmam a regra. Em inúmeras ocasiões o que sentimos são constantes subversões de valor: quando o valor mercadológico se sobrepõe ao valor artístico da obra. Essas discrepâncias, tão vivas hoje em dia, são o combustível de grande parte dos fenômenos de vendas. Mas estão com os dias contados.

Alguém duvida?

Tandera, abrindo os portais do Pântano

Calor

Eu não sinto a dor do amor
Existe mesmo ardor?
Amor falso e menor
Sabor que já sei de cor
Pra mim o amor morreu
Pra mim o amor sou eu

Cuspido por Sombr-1-o

Sucesso


Comigo o arrego é um apelo que prego
Engulo e carrego
Seu apego ao meu ego
Sossego é um amor cego como um morcego
Sucesso é o pescoço mordido do moço
Um troço tão doce
Marcado a foice
No fosso da noite, o osso e o açoite

Debulhado há meses pelo rimador de plástico GrandmastaShakespear

Eu sei

Quando tudo está dando errado – aplique a regra da super-surtação

lidere com seu carisma um bando de fanáticos

morrer é correr é poder é morder quem não é

calma

neste jogo decisivo e nervoso

respiro um tremendo sufoco

 um soco um golpe furioso

maldoso

minha lei é a lei

eu sei

eu sei

eu sei

eu sei

 

Dependência

Detesto depender de algo, de forma que esse início que depende das letras. Já começamos errado. Dependendo do rumo que toma a prosa, saímos de banda e ficamos no canto. Atirados a córner como uma bola ameaçadora, como se o córner pudesse evitar seu novo vôo perdido. No escanteio todo zagueiro é bandido. Escolhe um na hora do perigo.

Nunca veremos a própria nuca

Nunca

Cabe a cada um desmiolar-se no momento melhor, no sentimento mágico que percorre os dedos, uma mesura, um segredo se insurge como uma boca que ruge. Uma onça grunge. Urge um  que paradoxo surge. Fomento o pacífico detento, aprisionado a contento, sabe o sabor do unguento. Cala-se. É apenas um susto.  Como recuperar-se?

Interrogações pululam.  Multiplicam-se. São mais que uma, duas, andam por aí como ratos saídos de esgotos bem fornidos. Cinzentos gordos e com pelos gordurosos. São charmosos pois trazem a tona a verdade incomum. Nada poderá dar certo enquanto o homem estiver no comando.

Sei que eu sou bem gostoso. Alimento fedorento, uma carniça interessante. Mais glosado itinerante uma rima incessante. Sou safado beligerante, como um livro na estante que alucina, traz a tona uma batida bem bem louca bem saída duma soma de paradoxos calmantes. Drogas venenosas drogas bocas de répteis salientes salivas quentes daquelas que deixam dormentes.Dormirás hoje diferente, eu sei como é que os cachorros sonham. Mexem as pernas loucamente, latem um latido miúdo. Lá do sonho veêm tudo.

É estranho ser mudo.

Imbecil

espumas viram nuvens de fumaçaah imbecil

quanto fracasso pode um homem suportar sozinho

em cima de seus ombros repousa o peso de cada sucesso alheio
na vida nunca somos aventureiros com armas infinitas

nem aquele eterno restart nos permite tentar mil vezes

ou permite?
eterna pergunta que se acumula nas fímbrias da alma

retorcendo-se como animal queimado vivo

que guincha, suplicando por um esgar de vida
de que adianta ser um gênio

desconhecido inútil esquecido

um subpoeta latindo impertinências

mal concatenando os males de si mesmo

Fronteira

Essa história se passa numa inóspita fronteira. Não se sabe se entre o sonho e a realidade ou se apenas um fronteira entre dois reinos longínquos, imaginários e esquecidos. O sol causticante a todos castigava já no alvorecer. Era sabido naquela região de montanhas desérticas o ar rarefeito e o calor demoníaco eram dois adversários a mais na luta pela sobrevivência. Nas últimas décadas as temperaturas todavia estavam cada vez mais escorchantes.

Os dois moribundos irmãos vinham cambaleando nervosos pela íngreme e pedregosa estradinha que levava ao cume. Esgueirando-se entre os precipícios sentiram os primeiros raios solares que espantavam a madrugada, o céu em tons de púrpura e âmbar anunciava o fim da noite companheira, que os ajudara a passarem despercebidos até ali.

Noodlot, o mais velho e Kohtalo, o caçula, chegaram até o topo da montanha. Vestiam trapos impregnados pelas agruras e tons do deserto cor de açafrão, mendigos amarelados, cheios de areia por todos os poros. Extenuados, vislumbraram ao fim de uma caminhada de cinquenta passos um posto de fronteira encravado entre as cordilheiras gêmeas.

reinos desérticos

Um posto precário, construído com paliçadas de madeira e um campanário de pedra-sabão, habitado por seis ou sete guardas, um posto como outro qualquer com a diferença de estar localizado no meio do nada no alto das montanhas alaranjadas. Via se pouco da construção, envolta numa espessa massa de nuvens.

Kohtalo, o irmão mais novo sabe que o rosto de Noodlot é o procurado – é ele é o notório criminoso nos reinos desérticos. Foi ele que teve a coragem de ir contra os desígnios do destino que impediam os desejos do indivíduo de existirem livremente naquelas terras. Foi que ele que protestou, advogou pelo uso livre da mandrágora, fora por isso condenado à forca, havia fugido e agora buscava refúgio atravessando escondido todos os reinos desérticos numa busca frenética por um oceano utópico, que talvez nem ali estivesse, talvez nem existisse, onde ele poderia fugir para um outro continente, onde fosse apenas um desconhecido.

Noodlot & Kohtalo

Kohtalo sussurra – Abaixe a cabeça irmão, esconda seu rosto e simule um aleijão. Claudicando, Noodlot passa ombreado por Kohtalo, atravessam o portão cor de abóbora, são ignorados pelos sentinelas e conseguem atravessar pelo outro portão. Um despenhadeiro gigantesco irrompe majestoso como uma estrada sem fim. Descer por entre essas escarpas é alentar contra a própria existência

Noodlot veste botas não apropriadas para aquela descida estreita que alterna pedras vermelhas pontiagudas e areia finíssima amarelo-mostarda. Tropeça na descida, cai alquebrado dentro de uma vala lateral e suplica a Kohtalo. – Uma fumegada, irmão Kohtalo, a mandrágora me chama.

Mandragora_Tacuinum_Sanitatis

Kohtalo retira um pouco da planta macerada de seu alforje ocre, prepara o recipiente e fumam a mandrágora. Noodlot sentado na vala, Kohtalo acocorado nos píncaros da estradilha. Sabem do seu vício, lamentam que ele tenha que ser sanado naquele momento. Conhecem os benefícios do vegetal e sabem também que é ele o culpado por estarem naquela situação periclitante.

Noodlot inebriado pela epifania da mandrágora observa calmamente o solapamento dos sentidos, de soslaio observa acima de seu ombro esquerdo a descida vertiginosa, aparentemente descontrolada de dois cavalos envoltos numa nuvem de poeira, alguns nanosegundos depois percebe que não são dois mais cinco equinos cavalgando furiosamente pela estrada.

O surdo Kohtalo não percebeu quando a carroça descontrolada carregada de toras de madeira passou por cima dele, pelos cascos do cavalo, num toque hediondo, velocíssimo, ao passar do primeiro animal, foi imediatamente lançado precipício abaixo. Impedido de balbuciar o mínimo som, Noodlot apenas fechou os olhos e dormiu.