Saltando de dentro da tela

Quem é quem nesse multiverso de fantasias. Na edição passada vimos que nossos heróis encontravam-se perdidos num limbo interdimensional. Através de um aplicativo transmutaram-se em pequenos íons. De dentro de seus leitores eletrônicos saltaram homens coloridos.

Esta literatura elétrica donde pulam super-humanos para a realidade não é um sonho. Da tela de cristal líquido, surgem sob o som de maviosas flautas os novos homens. O profeta, o hipocondríaco, o racional, o bêbado, o fanático, o estudioso e o desligado. Sete faces de um mesmo ser.

Neste tecnomundo, comentaristas e articulistas do vento apenas se dividem em diferentes doutrinas. Metade julga que o que passou passou e não importa mais. O outro terço julga que o passado passou mas é parte vital deste futuro distante. Como não sou bom em matemática, ficou faltando um pedaço que está  a cargo do leitor.

Temos tantas dúvidas. Nessa nossa nação pantanosa, somos super-vilões com frenéticos poderes. O poder de tirar poeira de velhos vinis. O poder de poder vencer, o poder de poder perder. Diretores que passaram por nossa sede sentem sede quando estão em contato conosco.

Acredito que devamos voltar para dentro do sonho. De dentro das telas de cristal líquido podemos vislumbrar as diferentes ondas. Não é crack, não é oxi, não é pó. É vida vivida em forma de gotas, em pequenas pílulas coloridas. Nada disso faz sentido. Viver não faz sentido.

Quando eu contei para Dr.Pangloss as dificuldades que estavamos sofrendo nessa aventura ele me aconselhou: “Querido Devianix III, você já deveria estar careca de saber que é preciso preencher todas as lacunas, nunca se deve terminar o dia sem coonestar um relatório diário completo. No meio do mês, uma prévia do relatório mensal e no fim do mês o dito cujo deve estar aqui presente no pendrive demoníaco de Deus – esta figura que reputo não existir.

De posse da arma Y, uma cortesia do profeta, meu amigo íntimo e um dos sete homens que saltaram da virtualidade para a realidade. Eu, Devianix III, herdeiro dos grande párias do multiverso, posso deslocar o prisma da insanidade. Quero, como bem disse um outro, fundar a Igreja dos Loucos. É isso, é isso! Como não pensei nisso antes.

Será uma comunhão de bizarros que salvará este pobre planeta, aqui o que se dá – planta. Pobre de mim – pobre de nós. Vamos acionar a arma Y e esperar para ver se o raio colorido que de lá sairá vai adiantar alguma coisa.

Devianix III

Eu sei

Quando tudo está dando errado – aplique a regra da super-surtação

lidere com seu carisma um bando de fanáticos

morrer é correr é poder é morder quem não é

calma

neste jogo decisivo e nervoso

respiro um tremendo sufoco

 um soco um golpe furioso

maldoso

minha lei é a lei

eu sei

eu sei

eu sei

eu sei

 

Pântano

Parados no tempo pereceremos aqui
paradoxal é o ponto de onde parti
para que pântano? tanta lama…
para que?

tantos temas
tantos tremas
palavras lentas
treme o trem
que traçou aqui
este traço torto
desta vi(d)a morta

podre pântano poderia ser puro

tento o tato tácito
por não ser político
mas eu sou polido
finjo, iludo,
sou o gatomestretudo
bem vindo
é lindo ser um cínico imundo

hey danny boy
somos emissários do inimigo
cuidado conosco caro amigo
visite nosso covil, nosso abrigo
serpentes penetrarão em seu umbigo
jacarés dormirão abraçados contigo
é o pântano querido!

Masmorra

Preso sob sete metros de paredes espessas de lodo. Não era a melhor definição de diversão. Estava literalmente enterrado vivo numa masmorra subaquática em algum lugar da Cidadela Oeste. Articular mentalmente seus poderes mutantes será a única saída dessa situação.

Uma averiguação visual é aprimeira coisa a ser executada. Úmido, o chão afunda sob meus pés. Uma areia preta grossa é o fundo da minha cela. Muito abafado aqui dentro. A fumaça cinza do metano impregna tudo.

Deve estar 40 graus aqui, a única iluminação vem de uma luminária de vaga-lumes que pende imóvel do teto. Quase posso alcançar a luminária com apenas um toque. O teto, uma grossa camada impenetrável de raízes está a aproximadamente um metro e noventa do chão.

Este compartimento com cinco metros de largura é o meu confinamento. Pelo menos a quantidade de vermes nematóides é farta por aqui. Nunca fico com fome. Uma forma de proteína pura que absorvo e que sinto, vem me alterando, pouco a pouco. Serei um nematóide brevemente. Terei a amplidão de todos os habitats? Estarei na terra, embaixo dela. Parasitando em simbiose no mar, atachado aos grandes leviatãs, magnanimamente alvançando vários metros em extensão físico-mental.

Meu único olho que funciona não ostentava mais seu brilho natural alaranjado, mas ainda podia sentir que receberia visitas em breve. O cheiro da megavegetofauna surrupiava de longe meu olfato. O olho captava todo o cheiro. Não estava errado. Um grande ser se manifestou, formando-se como uma massa biovegetal em ebulição nuclear. Era a presença química divina. Transmutar terrosamente com esse tipo de energia era sim meu objetivo. O clímax que busquei desde que parti.

mas morra

Nunca erro. Sabia que aquele era o momento perfeito da fusão. Concentração máxima para conseguir lançar no cosmos os pulsares medulares. O transe é difícil de alcançar. Apenas uma vez consegui. Todavia não alcancei o sétimo plano. Permaneci ali inerte, solerte, destinado a passar mais cinquenta anos naquela masmorra fétida. O que são cinquenta anos para quem já está aqui há trezentos e cinquenta anos buscando a escuridão da alma absoluta.

A fusão objetiva a eliminação da capacidade pensante, a epifania suicida tende à união do ser com o âmago da eternidade. O sétimo plano, uma utopia constante, uma quase lenda, um talvez, um quase, uma tentativa, tratando-se disso. Era o desejo: Uma fusão hostil ou harmônica com o absoluto.

Mais uma falha e o próximo ciclo de oportunidades seria ainda mais obscuro. Tem dúvidas?

A Lenda de Negozul

( Como contada por Negobantu e Negocongu)

Extraído dos Contos Antigos do Pântano, vol III

As inúmeras lendas em torno da entidade Negozul são tão turvas quanto a própria história da África. Costumeiramente narrada através das bocas estrangeiras, a incrível saga do povo africano vem sendo através das épocas afastada de suas raízes por interlocutores ora mal informados ora mal intencionados.

Possivelmente a confusão em torno da entidade Negozul resida exatamente neste ponto. A multiplicidade de versões sobre sua existência através dos séculos se confunde com a própria essência multifacetada do continente negro

Talvez seja esta mesmo a missão de Negozul: contar a história do ponto de vista de quem a viveu, acabando com os mal entendidos. Ou não. Paradoxalmente, a confusão em torno do mito pode também significar que não existe apenas uma história e sim milhões delas, que unidas, contribuem para formar o grande arcabouço cultural africano.

Misto de orixá e lenda urbana, a entidade pode apresentar diversas formas e não precisa de “cavalo” para incorporar. Essa característica marcante talvez seja o diferencial de Negozul, normalmente atrelado ao plano metafísico e não ao campo místico.

Materializa-se na proximidade de ocasiões importantes, sempre junto com uma nuvem de fumaça azul-acinzentada e um grave ribombar de percussões. Sua passagem costuma ser sucinta e intensa. Chega trazendo notícias surpreendentes, conta antigas histórias e influencia em decisões dos que estiverem em sua área de influência.

Some sem deixar rastro e nem sempre se faz perceber já que nem todos as pessoas que estabeleceram contato sabem explicar minuciosamente o acontecido. Diversas correntes étnicas africanas, e suas respectivas descendências miscigenadas, já relataram contatos com Negozul.

Não se sabe ao certo de onde surgiu o nome Negozul. Explicações distintas povoam o imaginário popular. Uma corrente jura de pés juntos que a denominação é uma contração das palavras negro e azul. Outras vertentes asseguram que o nome é este em virtude da sufixo Zul significar força num antigo dialeto sudanês.

Uma terceira explicação diz que Negozul é o antigo espírito de um sacerdote-músico, um alabê, já que na cultura africana em geral o som é o condutor de axé (força).

O sacrifício do sapo

surge o sábio sapo
urge que saiba que
o tal batráquio
pobre anfíbio ainda anseia
uma ânsia de ser sapo
e não ser sopa
nem ser saco

A vida no mundo do sapo segue a sua própria lógica e sofre transmutações frequentes, seus próprios eus vivem realidades paralelas.

as maiores maluquices que a mente pode conceber
dever ser diariamente alimentadas
ao deslocar seus se os neurônios se de-loucam-se
em vez fumaça enfuma furando só os olhos que nâo veem
o mundo se mexendo sozinho zé
as cinzas sendo sensorialmente espalhadas
na floresta numa comunhão bonito-patética
na contramão da estética
sendo o sonho de ser só sapo
uma opção dialética
filosofo crocodilianamente
turbino com meu rabo cascudo
sai de cima papudo
tenho as mãos de veludo
roubo – sou um mentalbandido
velhos voltam na velocidade que os iludo
trago o antigo mito do fato novo
de novo tu pede socorro
eu corro
no escuro
é sempre foda
nessa hora
é sempre foda
empata-foda
empena roda
coda

Somos sujos

que cor é essa?

Somos do esgoto, sujos.
Curtindo poesia-merda-cocô,
cianobactérias, gatoradeverdeatômico,
sopa de ervilha que o moscatelli falou.

Nessa fedentina
nem incenso me anima,
ânimo exaltado pelo cheiro do metano,
sulfídrico surfante no tapete d´alga mutante

Hesitante lodo…ovo podre…ovo da serpente-crocodilo;
Nesse instante nasce fulgurante neste seu cascudo estilo;
No esgoto, nosseu próprio perdigoto
nunca nunca se esgota, não seja idiota.

Biólogo Mário Moscatelli

Um futuro fudido

olhando pro futuro

saberá que no futuro o amor valerá créditos
dowloandáveis e trocáveis por mil traquintandas
interessantíssimas santíssimas trindades novas
dinheiro-moda-coração vazio
conecta sua mente
com a tomada mais próxima
quanto mais apaixonada estiveres
mais perto estarás daquela louis vitton tão desejada

a morte espreita

as vezes acho que eu sou mais que um
as vezes acho que eu sou você
e nós dois somados somos tudo
e divididos somos nada
e deuses que somos
podemos escolher
para onde
por que
e até quando
tudo acabará

chegou, acabou pra ele

DE COMO SURGIU A CIDADELA OESTE:

Em determinado momento a maioria já havia perecido. O céu cor de ocre deixava de ser apenas um delírio tornara-se há muito realidade. O ar rareava, lutavam os pulmões. Tinham sido avisados pelos ouvidos. Ouviram perfeita e claramente um som límpido e cristalino quanto límpido e cristalino pode ser o som. Ouviram e compreenderam as velhas novidades que os cientistas da Organização pregavam. Ouviram e ignoraram. Agora agonizam mutantes embaixo do horizonte plúmbeo.

Adaptaram-se as criaturas. A partir de então moléstias proliferaram-se, deram novo significado à palavra vida. Tão numerosas e diferenciadas entre si eram as espécies de arbovírus que de lá pra cá grassaram livremente pela superfície do planeta que tornou-se impossível distinguir entre a referida vida e seu oposto, a tal da morte. Espécies e subspécies se confudiram, mesclaram e fundiram-se.

O saber sofreu um baque, filósofos debateram o assunto por dezenas de séculos em sua incessante busca. A vida havia sido alterada na sua própria essência. Os que ainda debatiam esta condição o faziam ao lutar pela manutenção da mesma neste surrealista status quo que havia se tornado a vida.

Mantinham-se juntos nos poucos habitáculos que ainda permitiam atividade neurológica de alguma forma. Fora das Cidadelas era praticamente impossível distinguir um reles palmo a sua frente, quanto mais manter sua estrutura molecular intacta.

No início eram duas Cidadelas batizadas geograficamente como Leste e Oeste. Os orientais não mantiveram sua subsistência nos primeiros decênios do século $#&% e desapareceu todo o lado leste. Ironicamente, contam as lendas, que as palafitas afundaram num mar de enxofre.

Subsiste ainda a Cidadela Oeste.

Tandera, abrindo os portais do Pântano

Na imagem abaixo, colhida pelos pincéis mágicos de Pedrim Peroba contemple o que sobrou da Cidadela Oriental
Na imagem colhida pelos pincéis mágicos de Pedrim Peroba contemple o que sobrou da Cidadela Oriental

No Carnaval

Ao chegar do carnaval
as criaturas lamacentas
preparam o festival
velozes ou lentas
chegaremos lá
lá-lá-iá
tipo estilo bloco bom
aquele sem empurrão
onde tu consegue ver a bateria
as vezes o baixo arrepia
ué num é samba e é também
fica esperto, sou veloz
vou a mais de cemnovo_cartaz_grito_rock_web1