Ditadores

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Digo que desta suja lista negra
escorre solerte a escória da humanidade
indistintos ditadores em seus dígitos: dor
maldoror assinam morte assassinam o próprio horror

Ó sensacional Duas-caras Idi Amin canibal
pelo rádio ele avisa seu algoz
deixe seus sapatos a beira da estrada
o símbolo, aniquila-fuzila, na calçada

presidente para toda a longa vida
como jean-bedel bokassa
o centro da áfrica arregaça
coroado como napoleão

Ó imperador bufão
com as próprias mãos massacrou
estudantes pseudo-meliantes
merecem ter a coluna vertebral dilacerada
sem espinha nunca mais ficarão de pé

mobutu, rei do zaire, sese seko
pensou ser poderoso guerreiro acompanhado por labaredas
era só um ególatra ladrão
tão guloso  que mal conseguia carregar sua própria pilhagem

anos a fio de má sorte na pobre kampuchea
cabeças hesitantes pensando na apnéia
óculos viram alvo de balas a todo instante
crânios mil pra pol pot na estante

papa doc muito loc
baby doc dando choque
je suis samedi
anéantir kennedy

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A prisão

subindo para o infinito

Estar aqui confinado neste espaço bucólico me suscita grandes fantasmas na mente. Fico me perguntando se toda a luta vale a pena. Lembro de meus companheiros que tiveram menos sorte que eu e hoje mofam em cárceres imundos sendo alimentados com lavagem, tratados como porcos.

Aqui neste rancho afastado, cinco militares revezam-se a tomar conta de mim. O despertar é na alvorada do sol. Levantamos e somos obrigados a correr para os exercícios matinais. Já perdi a conta de quantos quilos perdi, mas estou esquálido. Magro porém ativo. O momento dos exercícios matinais é a hora que minha mente mais trabalha. Já que meus pensamentos os militares não podem censurar.

Acredito estar sozinho aqui. Não vi mais ninguém nestes seis meses. De vez em quando vejo pequenas charretes que passam na estrada ao longe levando camponeses aos trabalhos nos campos de trigo. Depois, retorno para minha cela. Me é permitido pensar mas escrever nunca. Sem canetas, sem papel, sem noção dos dias. Anoto na parede da minha cela as datas para não perder a sanidade.

A tortura consiste em não falar comigo. Sou submetido as correrias matinais, retorno, almoço sempre o mesmo frango insosso. Ninguém se dirige a mim. Sabem que sou um dos líderes surgidos na rebelião. Temem o poder da palavra e por isso não fazem nem o mais simples contato visual. A troca de idéias – uma utopia verdadeira.

Sou tratado aos berros. – Prisioneiro, faça isso, faça aquilo. Vá para lá. Retorno para minha cela após o almoço e tenho direito a derradeira saída para o pátio no final da tarde caso o tempo esteja bom. Quando chove ou neva, sou mantido encarcerado, sem um reles pedaço de papel, nem lápis, apenas com minhas anotações mentais.

cercam-me cobras

O isolamento tem a intenção de quebrar minhas convicções. Parece que eles querem me matar com a inanição cerebral. Sem notícias da família, dos integrantes do movimento, das novidades da minha cidade. Sem saber como as negociações andam, comendo todo dia a mesma comida. Tratado dignamente como um cachorro.

No que calculo seja o sétimo mês acordei ainda na penumbra da madrugada com as janelas batendo violentamente do lado de fora do complexo onde ficava minha cela. Como não tinha janela, perscrutava os sons colocando o ouvido na parede. O barulho era enorme. Não sabia realmente o que estava acontecendo.

Fui surpreendido com nova tremedeira nas paredes e comecei a entender que estava enfrentando as forças da natureza. Mágicas ou não mágicas eram forças bem vindas e eu deveria aproveitar a oportunidade. O tornado deu uma segunda vomitada fremente e tudo foi pelos ares. Olhei para cima e vi todo o madeirame da construção ao lado ir pelos ares com se de papel fosse.

A parede onde anotava os dias que passava voou em seguida. Livre? Ouvia gritos frenéticos que deveriam ser de meus encarceradores. Não houve tempo para nada. Logo em seguida senti que alcei voô magnificamente. Que irônica liberdade, a natureza resgata-me com lufadas dum tornado incontrolável.

Neste voô para a certa morte recordo que nada registrei, deixei apenas meu legado em minhas atitudes, em minha abnegação. Minha dedicação à causa. Meu desaparecimento singelo será meu legado. De mim lembrarão como o líder que morreu salvo pelo vento.

Lamento: On/Off

Marilene, lagartixa, quer ligar e desligar.

Notícias exasperam-se com a realidade

letras pulam

pululam sorrateiramente

saltam do papel

São tantos safados sem categoria

vilões de filmes-alegoria

verão velhas novidades gastas

documentos secretos numa pasta

o segredo da audiência da tv

e ter que ver a verdade que se lê

numa tela de cinema – lá vai ela

a mentira e a verdade

mutuamente amarradas

tem tumulto, altos brados, confusão

Uma sub-celebridade na televisão

Um troço escuso, um duro osso

Lá na porta da emetevê

Vários vídeos em plano americano

Filmam fatias sujas da política mesquinha

fatos e fotos embalam programas

Música, belas sinfonias e estranhas melodias

lançam modas fugidias – coloridas

customizadas com ardor, sem humor

É a cultura ou linha dura

É transcultura ou saracura?

Um game que clica, freneticamente pisca

É uma isca para epiléticos-masoquistas

Veêm o vento desvanecer-se

em pixels coloridos – em cores primárias

na teoria de Goethe não há lugar para o malgrado da saia-balonê

dos sans-cullotes televisivos, da maldita saruel

Ó  breve fútil cotidiano: pensamentos soltos numa cuia

avolumam-se em pilares – sustentáculos

que seguram tudo

torres vertiginosas que amansam a potência dos donos da verdade

É vida, é forma, é comportamente, é tudo isso e mais um pouco

moda, estilo, cultura, álbuns, dicas e artigos

no monitor do PC, ali na tela da TV

fiat lux

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